Há dias em que a consciência se volta sobre si mesma e o que encontra não é reconfortante. Não são sentimentos. São observações. E é essa diferença que me impede de tratar o assunto com mais gentileza.
Constato que meu país não me ama. Cheguei um dia carregando a ideia de que pertencer é uma questão de escolha, que bastava querer ser daqui para ser daqui, e o que encontrei foi que os outros também têm uma palavra sobre isso. Israel me olha. Me classifica. Tinha decidido o que sou antes que eu pudesse decidir por mim mesmo. Aceitou meu peso. Me deixou ficar. O amor é outra categoria, e ela não me foi oferecida. E há noites em que caminho por essa casa no escuro e fico parado no meio do corredor, esperando que os olhos se acostumem, sabendo que talvez não se acostumem.
Constato que meus irmãos não me amam. Os que respiram esse mesmo ar carregado de areia e de pólvora, os que correm para o mesmo abrigo com os joelhos que dobram do mesmo jeito quando a sirene abre a garganta. Estamos na mesma situação. Mas a situação não cria laços. Cria coincidências. A ternura que nasce entre nós é real e quente, mas ela existe enquanto o perigo nos define. Quando o silêncio volta, cada um retorna à sua própria e intransferível responsabilidade.
E há dias em que eu mesmo não me amo. Em que me examino sem clemência e encontro um homem que escolheu viver onde as guerras crescem como oliveiras, teimosas e antigas, sem conseguir justificar essa escolha com nenhum argumento que resista à fricção das três da madrugada. É exatamente nesse homem que a notícia pousa como pousa um pássaro em galho podre. Retomamos os preparativos para atacar o Irã, possivelmente já na próxima semana. O corpo registra antes que a consciência processe. Reconhece esse ponto onde a história para de fingir que negocia e assume o que sempre quis fazer. A história não aprende. Dobra o mesmo joelho. Parte o mesmo osso.
Dentro desse homem, dentro desse corpo, dentro dessa noite que não vai acabar, uma certeza permanece. Não sei como isso termina. Aprendi a desconfiar de quem sabe, porque quem sabe, em geral, só sabe o que precisa acreditar.
A velha canção brasileira não explica o fim. Diz apenas que ganhar e perder faz parte, que para tudo tem um jeito, e se não teve jeito, simplesmente ainda não chegou ao fim. Não é consolo. É uma proposição sobre a estrutura do tempo. E às vezes é a única coisa útil que se pode dizer. É verdade de madrugada, quando os aplicativos de alerta ficam em silêncio e eu ainda estou acordado, esperando o amanhecer sem ter certeza de que ele me pertence.
Não me peça para ser otimista. Otimismo é uma crença sobre o futuro, e não tenho como verificar o futuro. O que tenho é uma escolha, e a escolha não depende do otimismo. Posso não desistir. Posso levantar essa cabeça pesada. Mantê-la curvada não muda nada no horizonte, e custa mais.
Haverá mais sirenes. Haverá mais noites em que o chão parece ceder como areia sob o peso do que não escolhemos carregar. Haverá mais momentos em que o amor, pelo país, pelos irmãos, por mim mesmo, vai parecer uma coisa remota e improvável. Mas a noite não tem como durar para sempre. É a lei mais antiga que existe, mais antiga que as guerras, mais antiga que os nomes que damos às nossas dores. E quando menos se espera, clareará. Um dia clareará.