por Mauro Nadvorny | 21 nov, 2018 | Crônica
Finalmente chegara o grande dia do julgamento. As coisas na justiça são muito demoradas, mas dizem os advogados que precisam ser assim mesmo. Eu não podia reclamar porque comigo ela andava a galope.
Meu caso deveria ser muito simples. Eu trabalhei oito anos em uma empresa chamada Brasil e ela pagava o meu salário. No entanto a empresa afirma nos últimos meses que havia me pago a mais, ou seja, além do que eu deveria receber.
Como podiam dizer isso, eu ainda não entendia. Explico: durante o processo, conseguiram uma ordem de busca e apreensão na minha casa, desbloqueio dos meus sigilos bancários, escutas nos meus telefones e o escambau. Reviraram a minha vida de cima abaixo, de trás para frente, dos meus parentes, dos meus amigos, dos meus cachorros etc. Ainda assim depois de nada encontrarem, lá estava eu sentado como réu.
Confesso que ainda hoje quando penso nisso, me passa na cabeça que aquilo tudo ia acabar em pizza numa grande confraternização entre promotores e advogados. Eu e o juiz repartindo fatias para todo mundo. Não foi bem assim.
Interrogado eu expliquei que nunca havia recebido um centavo a mais do que deveria. Que não tinham uma única evidência disso e achei, sinceramente, que o ônus da prova ainda era da acusação. Claro que me imaginava em um tribunal normal, num julgamento real como manda a lei. Não era bem isso.
Trouxeram uma testemunha, o novo contador da empresa. Ele afirmava que além do salário normal, haviam me pago valores a mais e que eu apesar de saber que estava errado, os recebi sem chamar atenção. Que todos na empresa, desde que ele fora admitido nela, sabiam que aquele dinheiro a mais era destinado a minha pessoa.
Assim que ele terminou, meu advogado perguntou o óbvio: como é que ele pagava além do que devia sem nenhum questionamento? Como é que ele contabilizava estes valores? Bem, segundo ele, quando assumiu o cargo na empresa, foi dito a ele que assim era. Que teria inclusive conversado com a minha esposa já falecida, e na conversa questionado se ela estava feliz com o que eu trazia para casa no final do mês, ela respondeu que sim.
Neste ponto o juiz me questiona se eu estava a par disso. Minha esposa foi até bem objetiva na sua resposta, mas agora já não podia falar por si. Disse ainda que até onde eu me recordava, ela só poderia ter respondido que estava feliz com o valor do meu salário, que era o que eu levava para casa todo final de mês.
Então veio a maior surpresa. O juiz mostra um holerite encontrado na minha residência, preenchido com o meu nome, com o valor do meu salário e onde deveria constar o valor, havia uma rasura com outro valor. Perguntava ele, se eu reconhecia o tal holerite.
Examinei o papel e perguntei, devolvendo-o ao juiz, se havia alguma assinatura nele. Não esperei pela resposta e falei que se não existe assinatura não tem valor nenhum. Além disso, eu não me lembro dele.
Com isso, o julgamento foi se encaminhando para o final. Na minha ótica, e do resto do mundo, a empresa não foi capaz de comprovar aquela acusação. Não tinham uma única prova cabal do que alegavam. Nem poderiam porque eu nunca havia recebido nada mesmo.
Hoje, sentado na minha cela, lembrando aquele dia, vejo que eu estava enganado. Minha condenação foi publicada poucos dias depois. Eu deveria cumprir pena por apropriação indébita de valores recebidos além do meu salário, mas preciso explicar melhor para que seja compreendido.
Segundo o juiz, eu teria que pagar pelo crime de intenção de receber valores que não recebi. De acordo com ele, o testemunho do contador alegando que havia dinheiro destinado a minha pessoa, mesmo que de fato nunca tenha me sido depositado, além do holerite sem nenhuma assinatura, eram suficientes para comprovar minha intenção de receber dinheiro a mais e, portanto de cometer um crime. E por esta intenção aqui estou.
Eu estava cotado para assumir a presidência da empresa e com a minha detenção isto não foi possível. O novo presidente acaba de tomar posse e já convidou o juiz que me condenou para um alto cargo, prontamente aceito por ele.
Já estava suficientemente indignado quando vieram me informar que ganhei uma cozinha nova daquela empresa, mas como mandaram entregar no lugar errado, um sítio de um amigo, resolveram me processar outra vez. Agora dizem que foram induzidos a erro porque havia um guarda-chuva de minha propriedade no local e exigem que eu restitua tudo.
PS: Meu carcereiro acaba de me avisar que tem um visitante querendo falar comigo sobre a compra do prédio onde sou mantido. Disse que sou o dono porque estou aqui há sete meses sem pagar aluguel com comida e roupa lavada.
Coisas incríveis acontecem nesta empresa.
por Mauro Nadvorny | 17 nov, 2018 | Crônica
Hoje eu acordei em mundo completamente estranho. Não sabia disso até pegar meu voo para a mesa redonda sobre o Holocausto que eu havia me comprometido a participar.
Tudo parecia normal. Entrei no avião, tomei meu assento e como de costume, coloquei meus fones para ir escutando música e liguei meu leitor de livros para me entreter. Sim, eu me entretenho lendo um livro enquanto estou viajando, e foi aí que tudo começou.
Quando a gente se aproximava do destino, a aeromoça avisou que teríamos um pouco de turbulência porque estávamos próximos da borda do planeta. Achei que não tinha escutado bem devido aos fones com a música, que se referia aquela turbulência normal que acontece às vezes com a mudança de altitude. Então tirei os fones e brinquei com a pessoa ao meu lado, que se a gente continuasse seguindo reto acabaria caindo no espaço. Ela me olhou e respondeu que isso não aconteceria porque o piloto conhecia a rota e que depois de último acidente deste tipo, os aviões haviam sido adaptados para prevenir este tipo de incidente.
Voltando aquele momento, acho que fiz cara de quem não estava entendendo nada, como de fato não estava. Primeiro achei que havia escutado mal, depois achei que tinha feito uma brincadeira, mas ninguém estava achando engraçado e definitivamente o cara do meu lado me olhava com cara de poucos amigos.
O avião finalmente desceu e me dirigi ao local da mesa redonda. Depois de recebido e apresentado aos demais, nos dirigimos ao auditório onde fomos recebidos pelo público. O tema me era próximo e eu o único judeu da mesa. Fui o primeiro a falar e durante os primeiros dez minutos tudo corria bem quando a coisa desandou. Eu falava das origens do Nacional Socialismo e como um país extremamente desenvolvido e com uma democracia plena havia aderido ao regime de extrema direita, mais conhecido como nazismo. Um furor percorreu a sala e meus colegas de mesa, entre consternados e surpresos, se apressaram em tomar a palavra e pedir perdão pelo meu mal entendido.
Achei que era eu quem não estava entendendo nada, mas o colega que sentava ao meu lado me explicou que, equivocadamente, eu havia mencionado que o nazismo era de direita, quando todo mundo sabia que era de esquerda. Como assim, disse eu, agora já me beliscando para ter certeza de que estava acordado, olhando o calendário do relógio para ter certeza do ano em que estava e olhando ao redor para ter certeza de que estava no lugar certo.
O público se acalmou, e eu achei que o melhor seria informar que estava com uma baita dor de cabeça e que passava a palavra aos demais. E assim fui escutando a confirmação de que os comunistas haviam matado seis milhões de judeus. Não foi um, foram todos a dizer a mesma coisa. Definitivamente, algo estava fora do lugar e era eu.
De volta para casa fui logo percebendo que muita coisa não fazia o menor sentido. Um ex-presidente havia sido condenado sem nenhuma prova. Pior, chamado de chefe de uma quadrilha do tipo máfia narcotraficante, ele ia receber um apartamento no Guarujá e uma cozinha no sítio do amigo em troca de favores de bilhões de dólares. Eu não entendia como é que uma pessoa podia ser condenada por ser dona do que não recebeu, mas era bem isso que acontecia. Assim o cara foi em cana e não pode participar das eleições.
Logo vieram as eleições e ganhou um ex-capitão que foi afastado do exército por ato de indisciplina e tinha como vice um ex-general que se gabava de ter um neto branquinho, já que ele tinha a pela mais escurinha. Ganhou bem ganhado com a ajuda de amigos que pagaram milhões para explicar a população que o país estava à beira do caos. Disseram se o tal capitão não fosse eleito, as crianças seriam obrigadas a tomar mamadeira com um bico que lembrava um pênis. Que nas escolas seriam distribuídos Kits Gay, uma espécie de conversor de gênero, todo mundo viraria gay e o mundo iria acabar por falta de procriação.
Normalmente isso seria considerado Caixa 2, algo que havia sido proibido, mas parece que algumas leis valiam, outras não, dependendo de quem as descumpria. Para confirmar, o juiz que havia condenado aquele ex-presidente foi convidado e aceitou ser o ministro da justiça. Será que eu estava perdendo a razão?
Aí lembrei que o cara apresentado como futuro chefe da casa civil havia confessado ter recebido Caixa 2, mas pedido desculpas por sua atitude. Seria o caso então de quem tivesse praticado um crime destes fizesse o mesmo. Um senador da república até propôs que assim fosse, pediu desculpas, ganharia o perdão. Nada mais justo.
Meu mundo parecia mesmo deturpado e nada fazia mais sentido. Então os médicos cubanos anunciaram que estavam abandonando o programa pelo qual atendiam as populações mais necessitadas nos lugares onde nenhum médico brasileiro aceitava trabalhar. Aí achei que era impossível. Ninguém em sã consciência mandaria este pessoal embora deixando tanta gente desassistida. Ledo engano meu.
Com tanta coisa impossível acontecendo ao meu redor, achei que havia mesmo acordado em uma espécie de mundo paralelo, mas não. Tentei pensar que era algo do tipo “Matrix”, e que eu tinha tomado a pílula da cor errada.
Aos poucos percebi que as linhas que separam a ficção da realidade estavam cheias de nós, uma quantidade de nós difíceis de desatar. Mas não impossíveis.
Assim me vi tentando desatar esta confusão, nó por nó, um a um, aos poucos, um de cada vez. Logo outros se somaram e começamos a resistir aos que distorceram a realidade e a cada dia mais gente foi se somando a esta tarefa.
Em breve a Terra voltará a ser redonda, o Nazismo de direita, Kits Gays e Mamadeiras de Piroca vão ser considerados notícias mentirosas, Caixa 2 crime, com ou sem arrependimento, o ex-presidente será libertado e terá seu nome limpo e ninguém mais vai se lembrar do dia em que elegeram um abjeto (que ou o que é desprezível, baixo, ignóbil) inepto (que denota falta de inteligência,desprovido de sentido; absurdo, confuso, incoerente) para presidente do Brasil.