#elenão

#elenão

O resultado das eleições ainda é incerto. Se as pesquisas estiverem certas, e geralmente estão, algo de muito ruim está acontecendo. E pode piorar.

Quando todas mostravam que o inominável havia chegado ao teto de apoiadores, eis que a última pesquisa Ibope atribui a ele mais 4 pontos percentuais.

Quando todas mostravam que seu principal oponente crescia sem ter alcançado ainda o teto, eis que a pesquisa Ibope atribui a ele a perda de 1 ponto percentual.

O que chama atenção, ao menos a minha pessoa, são dois fatos bizarros, por assim dizer. Um é de que a transferência de votos de Lula para Haddad teria estancado e outro é um acréscimo de 11 pontos percentuais no índice de rejeição na semana em que são revelados fatos que desabonam o inominável e o país realiza a maior manifestação antifascista de sua história.

Como é sabido, Lula até ser impedido de concorrer, ganharia no primeiro turno. Tinha um percentual de cerca de 37 pontos percentuais. Haddad herdou este eleitorado, ou ao menos quase todo ele. Isto vinha aparecendo nas pesquisas a cada semana. Mas da mesma forma que ele não pode herdar 100% destes votantes em Lula por não ser um líder conhecido, é difícil compreender o crescimento da rejeição pelo mesmo motivo.

O país está atravessando um período de total descrédito nas instituições. Temos o pior exemplo disso vindo da suprema corte onde seus membros não se entendem e lavam a roupa suja em público. Se alguém achou muito feio a briga jurídica entre desembargadores do TRF4 por ocasião do Habeas Corpus de Lula, o que pensar da discussão sobre a legalidade de liminar entre Lewandowski, Fux e Toffoli.

O legislativo e o executivo já tinham dados seus exemplos antidemocráticos com o golpe e a derrubada de uma presidente eleita com 54 milhões de votos. O judiciário se omitiu.

Não bastasse a radicalização política, estamos em uma plena crise constitucional as portas de uma eleição. As instituições brasileiras não estão cumprindo a Constituição e isso pode resultar em caos. Quem garante a governabilidade do presidente eleito?

Existem interesses os mais diversos em jogo. O dono de uma rede de lojas constrange seus funcionários impunemente no mais absurdo assédio moral já visto. Bispos de Igrejas Evangélicas pedindo aos seus fiéis votarem em determinado candidato. Redes de TV direcionando votos para determinado candidato. Um juiz liberando depoimentos sob segredo de justiça 6 dias antes da eleição para beneficiar determinado candidato. Outro juiz censurando a imprensa para beneficiar determinado candidato. Uma pesquisa com resultados, no mínimo estranhos, que parecem beneficiar determinado candidato.

Apesar de tudo isso, o contraponto são as redes sociais e a imprensa livre na Internet. Graças a isso que as notícias do que realmente está acontecendo chegam democraticamente a todos. Talvez por esta razão, ainda podemos ter esperança de que a barbárie não vença a civilização. Para isso temos todos de reforçar as fileiras daqueles que combatem o fascismo representado pelo inominável.

O momento não é de se omitir. Não podem existir votos nulos, ou brancos. Não permita que por conta da sua omissão, um presidente fascista assuma a presidência do Brasil.

Qualquer um, menos ele. Nada pode ser pior.

Lula e o Santo Sudário

Sabem aquela criança que colocou o dedo no fogo da vela para ver se queimava? Que botou o dedo na tomada para ver se dava choque? Aquela criança fui eu. Aliás, fui, não, sou eu.

Desde sempre tive certa dificuldade em aceitar verdades absolutas sem uma boa explicação. Infelizmente algumas delas exigiram também dolorosas comprovações físicas. Fazer o que? Eu precisava ter certeza.

Provavelmente por conta disso que a religião nunca foi a minha praia. Digo que sempre fui a favor da tradição, mas nunca uma pessoa de crença religiosa. Em vista disso, eu me sinto perfeitamente bem fazendo uma reza do vinho no Shabat Judaico, e nem por isso acreditando na entidade a qual a reza menciona. Pode parecer estranho para um crente, mas na minha cabeça isso está perfeitamente resolvido. Eu acho bonita a tradição do ascender das velas no final de tarde da sexta-feira, da reza do vinho, do pão especial etc., da cerimônia passada de geração a geração. Mas isto não me faz acreditar em nenhum ser superior. Enfim, este sou eu e, contudo, respeito e admiro inúmeros amigos queridos que seguem a sua religião.

Uma das questões que envolvem a fé é a crença radical e dogmática sobre certos acontecimentos. Por exemplo, existem inúmeros relatos da aparição de Nossa Senhora, ou a Virgem Maria para diversas pessoas, inclusive crianças. Fátima e Lurdes são as mais famosas. Em todos estes casos o que existe em comum é alguém dizendo que viu e acreditem. Nunca foi possível uma análise científica por razões óbvias.

O Sudário de Turin, no entanto é uma história completamente diferente. Ele é uma peça de linho onde existe uma imagem de um homem que aparentemente sofreu traumatismos físicos de maneira consistente com uma crucificação. Nada demais se não fosse atribuído a ele ser o manto que envolveu o corpo de Jesus depois da crucificação.

Neste caso específico a ciência pode fazer o seu trabalho e constatou que não se tratava do corpo de Jesus por se tratar de um manto com idade menor do que aquela atribuída a morte de Jesus e porque a distribuição do sangue no tecido não é compatível com os ferimentos. Portanto uma falsificação. Não sei se foi este o propósito desde o início, mas o fato é que muita gente ganhou dinheiro com o Sudário.

Com todas as evidências científicas, ainda assim, muitos cristãos acreditam se tratar do manto que envolveu Jesus, portanto na santidade da relíquia. Nada fará com que mudem de ideia. A fé é muito mais forte e esta crença é inabalável.

Mas afinal de contas o que tem Lula a ver com isso? É que eu acredito que a analogia entre o fato de a despeito de toda ciência dizer o contrário, as pessoas seguirem acreditando no Santo Sudário, explique o fato de apesar de todas as provas em contrário, ou justamente a falta delas, fazer com que ainda existam pessoas que acreditem que Lula é ladrão.

Eu quero acreditar que a maioria das pessoas tem bom senso, mas isso não é uma verdade absoluta já que possuímos discernimento para algumas coisas, e a falta dele para outras.

Neste sentido eu diria então que boa parte de nós sabe distinguir o certo do errado e que aqueles que não sabem são os chamados perturbados de conduta, ou sociopatas. Vou dar o desconto para o que possa ser certo em determinadas culturas, ser errado para outras, me atendo ao que seria comum em todas elas.

Em qualquer país civilizado onde vigora o estado de direito e o exercício pleno da democracia, nenhum ser humano pode pagar por um crime que não cometeu e a presunção de inocência prevalece até prova em contrário. Eu disse PROVA em contrário. Pode-se acreditar que determinada pessoa cometeu um crime, mas é preciso provar que de fato foi ela. Até prova em contrário esta pessoa é inocente.

Na religião não existe a necessidade de uma prova. A fé religiosa e a crença são mais do que suficientes. Assim sendo, em cada uma das religiões de uma forma ou de outra, como distintos nomes e atribuições, a existência de um ser superior é fato.

Será que nós poderíamos trazer esta fé para nossa vida diária e fazer dela um fato? A gente poderia acabar com a medicina e viver da cura pela fé? A gente poderia acabar com a ciência e viver dos dogmas religiosos?

Acho que seria muito difícil e por isso a convivência deve ser harmoniosa. Ao homem o que é do homem e a Deus o que é de Deus.

Sendo assim, posso afirmar que no mundo real o julgamento de uma pessoa acusada de um crime deve ser baseado em provas cabais. A privação da liberdade de um ser humano precisa estar baseada na inabalável convicção de que o legítimo processo transcorreu em ordem e que todas as provas e fatos trazidos a ele mostraram sem a menor dúvida que tal pessoa cometeu o crime. Isso vale para todos.

Aqueles que ainda querem acreditar que Lula cometeu um crime são as mesmas que ainda creem no Santo Sudário.

Não importa que não existam provas, não importa que a defesa fosse cerceada, que o julgamento se baseou no testemunho de uma pessoa em contra outras dezenas. Lula já estava condenado muito antes de entrar no plenário porque a crença de seu juiz na sua culpa era de uma fé celestial inabalável, assim como daqueles que ainda acreditam nesta farsa.

Apesar disso tudo, escutamos algumas vozes do bom senso e uma delas acaba de vir do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Um grupo de homens de diferentes países, de diferentes culturas acaba de dizer que, independente do fato da culpa ou não de Lula, ele tem direito a concorrer à presidência enquanto existirem recursos em andamento e que os mesmos devem ser julgados com isenção. O Brasil é signatário de uma convenção que torna as resoluções deste comitê aplicáveis acima da lei brasileira neste assunto, qual seja os direitos humanos.

É compreensível a demanda, uma vez que não podendo concorrer e vindo a ser o vencedor, ficando provada sua inocência, não haveria como reparar o mal causado a ele. Todas as causas que precederam a de Lula neste mesmo sentido, tiveram ganho favorável nas cortes nacionais.

E agora, vamos ter uma decisão baseada na convicção celestial ou na fé dos homens?

Uma orgia democrática

A democracia é um sistema político com muitas falhas, mas ainda assim é o melhor sistema que existe.

Eu escuto de muitos amigos que estão horrorizados com as chamadas alianças partidárias, que segundo eles, são abomináveis, inexplicáveis, nojentas etc. Neste rol entram as alianças nacionais e estaduais que muitas vezes colocam partidos nacionalmente inimigos, estadualmente melhores amigos.

Uma das razões para isto é o número absurdo de partidos existentes hoje no Brasil, Só nesta eleição são 35 partidos.

O nome do jogo é política e nesta arte aprende-se a engolir sapos com uma grande facilidade. Inimigos de ontem, são os amigos de hoje. Fotos e discursos em favor de aliados vão sendo descartados porque hoje não mais se falam.

Neste jogo existe o pragmatismo, e a ideologia vai sempre ficar em segundo plano. Numa disputa política pela governabilidade, vale tudo, ou quase tudo. Vale até mesmo elogiar oponentes e menosprezar aliados, dependendo do estado da nação.

Durante a ditadura, os milicos resolveram o problema permitindo dois partidos. Todos que eram a favor pertenciam a Arena (Aliança Renovadora Nacional) e todos que eram contra, pertenciam ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

Com 35 partidos, não existe ideologia para tanto partido. Por mais que a esquerda se divida, quantos partidos ideológicos pode haver? E na direita a mesma coisa. Até mesmo no centro, que são os que acham que ideologia não serve pra nada, quantos partidos seriam aceitáveis?

Com esta profusão, é lógico que o apelo televisivo, e me refiro ao tempo de TV, tem um alto custo. Cada segundo, conta e aí é preciso vender a alma ao diabo para ter mais um “aliado” com tempo disponível, e a venda. Sim, venda, porque o custo desta entrega vai ser cobrado depois com juros e correção monetária.

Se o jogo é este, quem quiser participar, vai ter que aceitar as regras, sob o risco de ficar sem representação. E vejam que não basta ganhar a presidência, é preciso fazer maioria para poder governar e tentar impor minimamente um plano de governo. Este é o segundo tempo deste jogo, e nele tudo pode mudar. Aliados da corrida a presidência ou ao governo dos estados podem ser substituídos por novos aliados, aqui vale tudo.

O sistema democrático, seja ele presidencialista ou parlamentarista, funciona quando certos limites são colocados em nome do bom funcionamento do sistema. É claro que diferentes pensamentos, nem sempre ideológicos, precisam ter voz. É claro que as minorias precisam estar representadas. Mas tudo isto pode acontecer dentro de, dois, três, talvez cinco partidos. Mais do que isso, é escancarar as portas para o que estamos assistindo, ou seja, uma representatividade puramente pessoal, onde os Tiriricas se elegem em qualquer sigla carregando consigo um número elevado de correligionários com menos votos que aqueles com formação política em partidos de formação ideológica.

É justamente esta incoerência no sistema que está deixando o país ingovernável. É ela que permite um Impeachment político sem qualquer escrúpulo, onde qualquer presidente pode estar sujeito a execração pública, mesmo sem haver cometido qualquer crime.

Esta distorção não será fácil de ser corrigida, pois na medida em que se instalaram, estes partidos nanicos jamais darão seus votos para um aumento do percentual de votos necessários para terem representatividade política. O mal já está feito.

A única saída seria uma consciência política por parte da população. No atual estágio em que o país se encontra, eu não vejo isto acontecendo nos próximos anos. A reboque, além da instabilidade política vamos continuar tendo uma redução da qualidade de vida fruto de uma economia em frangalhos com milhões de desempregados.

Estas eleições, por tudo o que está acontecendo, serão históricas. Infelizmente para o mal.