Todo governante sonha em ser amado pelo seu povo, e a maioria descobre, mais cedo ou mais tarde, que o medo é muito mais fácil de administrar. Foi a lição que Nicolau Maquiavel aprendeu em 1513, depois que seu nome apareceu na lista errada, encontrada no bolso de um conspirador que ele mal conhecia, e o novo governo de Florença o submeteu seis vezes a um suplício conhecido como corda, os pulsos amarrados às costas e presos a um cabo que o içava pelos braços em direção ao teto, para depois soltá-lo numa queda seca que lhe arrancava os ombros do lugar. Dali partiu para o exílio numa propriedade rural, onde à noite começou a escrever um manual de sobrevivência política, oferecido sem o menor pudor ao mesmo clã que o havia torturado e banido. Há algo de delicioso, e um pouco desconfortável para quem escreve sobre o poder vivendo sob ele, no fato de que o retrato mais lúcido da autoridade já posto no papel tenha saído de um cortesão desempregado disposto a recorrer a qualquer bajulação para recuperar o emprego. Se precisasse de trabalho hoje, provavelmente estaria escrevendo a coluna mais servil já publicada em defesa do primeiro-ministro de Israel, e duvido que eu, ou qualquer outro que também dependa da boa vontade de quem manda, tivesse moral para atirar a primeira pedra.

Mas o texto escapou ao autor, o que costuma acontecer com as obras-primas e quase nunca com os bajuladores. Os Médici, registre-se, nunca lhe devolveram o emprego. Ele perguntou se era melhor ser amado do que temido, e respondeu, com a calma de quem viu coisa demais para se dar ao luxo do idealismo, que o ideal seriam as duas coisas, mas que, sendo isso raro, um governante faz melhor em apostar no medo alheio, porque o afeto depende da boa vontade de quem o dá, enquanto o medo depende apenas de quem o inspira, e a boa vontade, como sabe qualquer um que já foi traído, costuma trocar de lado exatamente na hora em que é mais necessária.

Aplicada ao homem que nos governa há mais tempo do que qualquer outro em nossa história, essa distinção deixa de ser teoria. Temos motivos de sobra para temer o míssil que vem de fora. O que soa cada vez mais familiar é o resto do roteiro, o procurador que suaviza a acusação, o juiz que adia o julgamento, a imprensa que modera o tom, e a reforma do próprio tribunal que um dia poderia condenar o líder, vendida ao país como a salvação do Estado. Vale a pena parar para perguntar o que exatamente está sendo salvo. Este é um país cujos juízes mandaram um presidente para a prisão por estupro e um primeiro-ministro para a prisão por suborno, um histórico que não descreve uma democracia frágil precisando de resgate, mas uma democracia sólida que aprendeu a não tratar nenhum cargo como sagrado, e essa solidez é justamente o inconveniente, porque um tribunal capaz de prender os poderosos de nada serve a um homem que pretende nunca deixar de ser poderoso. Os cientistas políticos deram a esse roteiro um nome bonito, democracia iliberal, e o curioso é que ele sempre chega vestido de emergência nacional, nunca de ambição pessoal.

É trágico ver os mesmos homens que se apresentam como guardiões do nosso povo e da nossa história recorrerem, sempre que a lei chega perto demais deles, ao mesmo truque, confundindo a sobrevivência do país com a sobrevivência do próprio mandato, como se as duas coisas fossem a mesma coisa, uma equivalência que ninguém além deles jamais chegou a confirmar. A lógica que Maquiavel pôs no papel, embora composta para agradar a um príncipe em particular, não poupa nenhum príncipe que se pareça com ele. Talvez porque seu autor tenha pendido da corda do Estado e aprendido, nos próprios ombros, o que o medo custa a quem o sofre, o livro distingue o príncipe que é temido porque protege do príncipe que é temido porque teme ser substituído, e reserva para o segundo o adjetivo mais duro do seu vocabulário, desprezível. A bajulação fracassou, o livro ficou, e o cortesão desempregado, que queria apenas um emprego, acabou legando a cada geração o instrumento exato para medir o homem que quer apenas não perder o seu. Nosso primeiro-ministro carrega esse adjetivo com a mesma disciplina que aplica a todo o resto. Ele sabe exatamente o que está fazendo, e faz porque sabe, o que é uma maneira bem mais precisa de dizer que a devoção que ele nos vende como amor ao país há muito tempo não passa de amor a si mesmo.