A Estrela de David não nasceu como símbolo de Estado. Gershom Scholem passou décadas rastreando sua história e encontrou algo perturbador: durante séculos, o hexagrama foi um ornamento, um amuleto, uma figura decorativa sem peso teológico fixo. Aparecia em sinagogas e em mesquitas, em talismãs judaicos e em manuscritos islâmicos. Era de todos porque não era de ninguém em particular. Só no século XIX, quando o nacionalismo europeu exigiu que cada povo tivesse sua bandeira, seu emblema, sua identidade visual consolidada, é que a estrela de seis pontas foi recrutada para ser o sinal do povo judeu. Nasceu moderna, essa identidade. Nasceu como escolha, não como revelação.
Eu também escolhi. Não fugi de nada, não escapei de nenhuma perseguição. Vim porque quis, porque havia aqui algo que parecia valer uma vida inteira. O sal do Mediterrâneo de manhã, a sensação de pertencer a um projeto que sobreviveu ao impossível. Essa foi a aposta. E as apostas, quando se perde, doem de forma que só quem as fez entende.
Quando um símbolo é construído, pode ser destruído. Não fisicamente, mas por dentro, pela conduta daqueles que o carregam. O que Netanyahu e o círculo que o mantém no poder têm feito é precisamente isso: destruir o símbolo a partir de dentro, usar o escudo como arma e depois exibir os destroços como prova de resistência.
Há uma violência específica nisso. Não a violência da guerra, que tem sua própria lógica brutal e seu próprio julgamento na história. A violência do que se faz com o nome de um povo enquanto esse povo assiste, parte em silêncio forçado, parte em cumplicidade, parte em desespero genuíno. Gaza não é apenas uma catástrofe humanitária, embora seja isso também, de forma avassaladora. É o lugar onde a imagem de Israel como projeto moral foi sendo executada, decisão por decisão, declaração por declaração, por homens que precisam da guerra para sobreviver politicamente e que aprenderam a chamar essa necessidade de segurança nacional.
Scholem entendia que os símbolos carregam a ambivalência de sua própria história. A estrela que ornamentou a porta de sinagogas da Europa Central foi a mesma costurada em amarelo nos casacos dos condenados. O mesmo sinal. Significados opostos. O que muda não é o hexagrama, mas quem o usa e com qual poder nas mãos.
O que Netanyahu e Ben-Gvir e Smotrich fazem com esse símbolo não é diferente em estrutura, apenas em direção. Tomam o escudo de David e o transformam em carta branca. Invocam o Holocausto para silenciar a crítica. Convocam a memória dos perseguidos para justificar a perseguição. Usam a narrativa do povo que quase desapareceu para legitimar políticas que fazem outros povos desaparecer. Isso não é defesa. É o sofrimento convertido em arma, e é moralmente indefensável por qualquer critério que não seja o da pura conveniência tribal.
E o dano não fica contido nas fronteiras de Gaza ou na Cisjordânia. O dano vaza. Chega às ruas de Londres e São Paulo e Paris, onde jovens que nunca pisaram em Israel confundem o Estado com o povo, o governo com a tradição, Netanyahu com o judaísmo. Esse é o crime adicional que a extrema direita israelense comete contra os próprios judeus: tornar a estrela de David um símbolo de ocupação nas mentes de uma geração inteira. Scholem temia que o símbolo pudesse ser esvaziado. Não imaginou que pudesse ser preenchido com isso.
Há manhãs em que o mar está quieto e Israel parece exatamente o que deveria ser. Nesses momentos, a aposta ainda faz sentido. Mas entre esse silêncio e o que se vê nas telas há uma distância que cresce a cada semana, e é uma distância que homens como Netanyahu criaram deliberadamente, porque precisam do abismo para continuar de pé.
O escudo de David sobreviveu à indiferença, à apropriação, ao amarelo dos campos de concentração. Não sei se sobrevive a isso. A ser brandido por quem transformou o medo em ideologia e a ideologia em impunidade, enquanto o mundo assiste e vai aprendendo a associar a estrela de seis pontas não ao povo que a carregou por séculos, mas aos homens que a sequestraram numa tarde de outubro e ainda não a devolveram.