Primeiro vêm os legumes, depois a sobremesa. A regra que se aprende na infância tem nome científico desde os anos sessenta, quando David Premack descobriu, em experimentos com ratos, macacos, e crianças, que o comportamento mais frequente pode ser usado para reforçar o menos frequente. Mas qualquer avó já sabia, e qualquer sociedade que tenha envelhecido o suficiente para ter aprendido com seus próprios erros aplica a mesma regra em escala maior, porque para chegar ao que se quer é preciso passar pelo que custa.
Israel está comendo a sobremesa primeiro, e preciso falar disso diretamente com meus concidadãos. A coalizão de extrema direita que governa o nosso país escolheu o que dá retorno imediato, a guerra que mobiliza, o medo que une, e o arranjo parlamentar que se mantém de pé enquanto os mísseis estão no ar. O que sustentaria o país a longo prazo fica do lado de fora da mesa onde a sobremesa está sendo servida, tratado como tarefa de outro governo, de outra geração, de outro país que ainda não nasceu. A solução política negociada, o reconhecimento da responsabilidade israelense em ciclos sucessivos de violência, a construção de uma cidadania compartilhada com os árabes deste país, e a aceitação de que nenhum povo desaparece quando se decide ignorá-lo, ficam todos esperando do lado de fora.
A nossa capacidade de mobilização não é o problema. Em dois mil e vinte e três, quando a coalizão tentou quebrar a Suprema Corte, centenas de milhares de nós saímos às ruas semana após semana, durante meses, sem cansar e sem ceder, até que a reforma judicial fosse adiada. Sei que esta sociedade sabe se levantar quando percebe uma ameaça concreta a algo que valoriza, porque me levantei com ela. O que falta não é energia, é alvo.
A energia que preservou a Suprema Corte precisa ser dirigida ao que vai preservar o país. O caminho seria uma coalizão eleitoral que una a oposição liberal e os partidos árabes israelenses numa plataforma única que reconheça publicamente que segurança militar sem horizonte político é dívida acumulando juros, e que cada operação militar sem solução diplomática aumenta o custo que será cobrado dos nossos filhos e netos. É a mesma regra da infância, só que aplicada a um país que insiste em adiar o jantar.
Os líderes que esta coalizão teria são generais e administradores. Nenhum deles carrega o peso fundador que Menachem Begin trouxe do Irgun e da assinatura da paz com o Egito, ou que Shimon Peres conquistou em décadas de construção institucional e num prêmio Nobel da Paz. Vieram do exército ou da gestão pública, e nenhum deles tem o peso histórico nem o carisma que esta hora exige. Mas estar com o governo atual é estar do lado errado da história, e líderes médios na direção certa fazem mais pelo futuro do que um líder hábil indo contra ele.
A geração anterior à minha já partiu sem ter visto o resultado da refeição que escolheu adiar, e a minha provavelmente partirá sem ver também. Mas a regra da avó vale para civilizações como vale para crianças, e a única diferença é que civilizações pagam mais caro pela sobremesa adiantada.
Concidadãos, se sabemos mobilizar quando algo nosso é ameaçado, e se sabemos que a falta de solução política é a maior ameaça que este país enfrenta, por que não mobilizamos contra ela com a mesma intensidade que mobilizamos contra a reforma judicial? A resposta não está em Tel Aviv nem em Jerusalém. Está em cada uma das nossas cozinhas, onde a sobremesa foi servida primeiro durante tanto tempo que o sabor dos legumes foi esquecido. A regra ainda funciona.