Não posso afirmar com certeza que destruí meus quatro casamentos por não reconhecer o momento em que uma discussão deixa de ser uma discussão. Também não posso negar. O que posso dizer é que nenhuma das quatro mulheres que me conheceram de perto apontaria isso como causa. Mas há algo que conheço bem, não da teoria, mas da experiência repetida com uma consistência que deveria ter me ensinado algo antes da quarta vez. Você começa uma discussão com a intenção de resolver um mal-entendido pequeno. A outra pessoa reage de forma mais intensa do que você esperava. Você escala o tom para recuperar a posição. Ela escala de volta. Em poucos minutos, nenhum dos dois lembra qual era o mal-entendido original, e o que começou como uma conversa se tornou uma guerra que nenhum dos dois planejou travar. Você conhece esse padrão. Todo ser humano o conhece. Robert Pape passou a vida acadêmica demonstrando que estados soberanos, com exércitos, bombas e estrategistas pagos para pensar, caem no mesmo. Só que quando estados caem nele, o resultado não é uma noite mal dormida num sofá onde meus quase dois metros insistem em não caber. É o que estou vendo daqui, de Israel, onde moro, enquanto os mísseis explodem sobre nossas cabeças.
Pape é professor de ciência política na Universidade de Chicago, conselheiro estratégico de todos os presidentes americanos desde 2001 e um dos analistas militares mais influentes dos Estados Unidos. Passou vinte anos simulando o bombardeio da planta nuclear iraniana de Fordow, que caças israelenses e estadunidenses atingiram em junho de 2025, e a mudança de regime no Irã. Em 1996, publicou Bombing to Win, obra que examina o poder aéreo e a coerção na guerra e argumenta, com uma precisão que incomoda, que bombardear inimigos raramente produz os resultados políticos que os bombardeiros acreditam que vai produzir. Quatro dias antes do início da guerra contra o Irã, publicou na plataforma Substack uma newsletter com o nome do modelo que desenvolveu ao longo dessas décadas. O termo Armadilha de Escalada está agora se espalhando pelo mundo, e desde então Pape tornou-se presença constante em programas de televisão, podcasts e entrevistas ao redor do mundo, enquanto as buscas pelo termo no Google registram aumento de vinte por cento desde o início do conflito. Quando um modelo acadêmico começa a ser procurado assim, é porque a realidade está se comportando exatamente como ele previu, e isso não é uma boa notícia para ninguém que vive em seu raio de alcance, menos ainda para quem vive em Israel.
O modelo que Pape desenvolveu descreve uma sequência deceptivamente simples, e peço que você a leia com atenção porque ela explica o que está acontecendo agora de um jeito que os boletins de guerra não conseguem. Uma potência decide atacar outra com força limitada para atingir um objetivo determinado. A agredida reage expandindo o campo de batalha. A agressora escala o conflito para recuperar a iniciativa. O ciclo se repete, cada vez em nível mais alto, e o que começou como uma operação cirúrgica vai adquirindo a lógica implacável de uma guerra que ninguém planejou travar nessa escala. A armadilha não é que as guerras ficam maiores. É que os esforços para controlar um conflito podem torná-lo mais difícil de controlar. Essa distinção é o coração do problema.
Desde 28 de fevereiro, quando Israel e os Estados Unidos lançaram os primeiros ataques contra o Irã, os números acumulados falam por si. Cerca de oito mil voos sobre o território iraniano. Entre sete mil e sete mil e oitocentos alvos atingidos. O líder supremo Ali Khamenei morto. Parcela considerável da cúpula do regime eliminada. Os primeiros seis dias de guerra custaram aos Estados Unidos aproximadamente onze bilhões e trezentos milhões de dólares, segundo funcionários da administração Trump presentes a um briefing fechado no Congresso. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais estimou que os primeiros doze dias custaram dezesseis bilhões e quinhentos milhões de dólares. Somando os gastos americanos desde 7 de outubro de 2023, incluindo ajuda militar a Israel e operações no Iêmen e no Irã, o total chega a entre trinta e um e trinta e três bilhões de dólares, e o Pentágono já solicitou ao Congresso duzentos bilhões adicionais para financiar e reabastecer suas forças. E ainda assim os Estados Unidos parecem longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades. Donald Trump afirma que os Estados Unidos já venceram, pede ajuda internacional para desobstruir o estreito de Ormuz, tenta se dissociar do bombardeio israelense da maior planta de gás natural do Irã e ameaça destruir as mesmas instalações se houver novos ataques iranianos ao Catar. A Agência Internacional de Energia declarou que a guerra provocou a maior disrupção de oferta de petróleo da história. O barril chegou a quase cento e vinte dólares na semana passada. A pressão inflacionária avança. As cadeias produtivas tremem. Você vai sentir isso no supermercado, na conta de luz, no preço da gasolina, independentemente de onde mora e de qual lado desta guerra torce. Aqui em Israel, sentimos de forma diferente, porque a guerra não é uma abstração que chega pela tela. Chega pelo céu.
O que o modelo ilumina não é o inventário de armas ou a contagem de alvos destruídos, mas algo mais difuso e por isso mais difícil de combater, a transição progressiva de menor para maior engajamento, a ilusão de controle, o momento em que a crise episódica se converte em envolvimento estrutural. Análises geralmente explicam eventos, escreveu Pape. Poucas explicam em que fase um conflito está entrando e o que isso significa antes que se converta em engajamento. O modelo fornece as molduras para reconhecer esse momento. O problema é que reconhecer o momento e sair dele são coisas inteiramente diferentes, como qualquer pessoa que já terminou uma noite dormindo num sofá sabe muito bem.
A questão estratégica central é esta. Quais são as condições políticas desejáveis para os Estados Unidos ao final desse conflito? Trump e seus auxiliares têm oferecido respostas múltiplas e contraditórias, da mudança de regime ao enfraquecimento da capacidade militar iraniana, passando pelo fim do programa nuclear. Essa ambiguidade é disfuncional por uma razão precisa. Impede a formação de coalizões internacionais, fragiliza a legitimidade da operação e aumenta consideravelmente os custos para Washington. Destruir alvos e matar líderes são métricas táticas. Produzir as condições políticas desejáveis é uma métrica estratégica. Quando as duas não estão alinhadas, o que acontece é exatamente o que estamos vendo, oito mil voos e o objetivo ainda não alcançado.
O modelo captura a lógica do conflito, mas não sua geometria específica. O Irã, enfraquecido militarmente, recorre a retaliações assimétricas para evitar uma derrota percebida como total. O alastramento de ataques com mísseis e drones contra países vizinhos amplia os custos políticos e estratégicos da operação para os Estados Unidos e Israel, custos consideravelmente mais baixos para Teerã. Uma guerra defensiva para manter o regime no poder tem vantagens evidentes. Se a República Islâmica sobreviver ao conflito, seus partidários poderão declarar vitória estratégica simplesmente por ter resistido. Travar uma guerra de sobrevivência é politicamente mais sustentável do que travar uma guerra de conquista. E toda guerra é jogada por dois lados. O Irã também tem direito de fala, e vai reagir para impedir que se realize o que a potência agressora deseja. Teerã está há quarenta anos aprendendo a reagir de formas que o poder aéreo não consegue obliterar, e isso não mudou porque os bombardeios foram mais intensos desta vez. Os analistas convergem num ponto. Os Estados Unidos já entraram em modo de controle de danos e dificilmente evoluirão para um envolvimento em larga escala como ocorreu no Afeganistão e no Iraque. O caminho mais provável é uma saída estratégica que permita a Trump declarar vitória sem a realização de todos os propósitos cogitados no início da ofensiva. Mas o Irã continua no tabuleiro, e continua reagindo.
E aqui está o ponto que ninguém em Israel consegue dizer em voz alta porque a própria guerra tornou impossível dizê-lo. As eleições israelenses estão previstas para ocorrer até outubro de 2026, mas Netanyahu tem a capacidade de dissolver a coalizão governante antes disso e convocar eleições antecipadas, escolhendo o momento em que ele e seus parceiros religiosos e nacionalistas tenham a melhor chance de vencer. Enquanto a guerra durar, a pergunta sobre o que aconteceu naquela manhã de sábado de 7 de outubro de 2023 e quem é responsável por isso permanece enterrada sob os escombros da urgência militar. Netanyahu não quer falar sobre 7 de outubro, e Trump tem suas próprias razões para manter perguntas incômodas à distância, entre elas os arquivos Epstein que uma guerra convenientemente afoga. A oposição israelense grita no vazio, porque num país em guerra ninguém ouve quem questiona o comando, e Netanyahu sabe disso melhor do que qualquer estrategista. A guerra é o adiamento. A guerra é a defesa. A guerra é o único instrumento que transforma um homem que deveria estar sentado no banco dos réus num líder de guerra indispensável, e a armadilha que aprisiona o Irã aprisiona também Israel, com a diferença de que no nosso caso o arquiteto da armadilha vive em Balfour e chama a si mesmo de líder. Netanyahu e sua camarilha estão dispostos a manter toda uma população dentro desta armadilha, a pagar o preço em mísseis, em inflação e em mortes, enquanto for necessário para mantê-los no poder. Essa é a diferença entre uma armadilha que acontece e uma armadilha que é construída.
Você e eu não estamos nessas salas onde as decisões são tomadas. Eu estou em Israel, onde a distância entre estratégia e consequência não se mede em documentos de política, mas no som das sirenes. A conta chegará para todos nós, na forma de inflação, desemprego e instabilidade que já começam a se fazer sentir nas cadeias produtivas globais, colocada nas costas de quem escolheu essa guerra e de quem não escolheu nada, de quem vive aqui e de quem vive no Brasil, na Europa, em qualquer lugar onde o preço do petróleo determina o preço de tudo o mais. A armadilha não avisa quando fecha. Ela simplesmente fecha. E então você se pergunta como chegou até aqui, e a resposta é sempre a mesma: um passo de cada vez, cada um deles parecendo razoável no momento em que foi dado, até que você se encontra dormindo num sofá ou num bunker, esperando que os mísseis parem. A diferença é que do sofá você sai de manhã. Do bunker, ainda não sei quando.