Escrevo isso sentado dentro de um cano de esgoto de dois metros colocado ao lado da minha budka, a pequena cabine pré-fabricada na entrada do lugar onde trabalho como guarda noturno, enquanto mísseis iranianos explodem sobre nossas cabeças. Há uma certa justiça poética em escrever sobre a merda que está acontecendo no meu país de dentro de um cano de merda. E daqui, com as sirenes ainda no ar, certas abstrações deixam de ser abstrações.
Este texto se baseia em um artigo de opinião de Tomer Persico, um dos analistas mais lúcidos e corajosos que escrevem hoje sobre religião e política em Israel, publicado no Haaretz em 13 de março de 2026. O rabino Yosef Kelner leciona na yeshivá Bnei David em Eli, nos territórios ocupados. Em gravações de suas aulas feitas em 2018 que só agora vieram a público, ele declarou que deixar de observar a Torá é imoralidade e traição nacional, contra as quais toda sanção é legítima, incluindo uma bala na cabeça. O governo israelense continua financiando suas aulas.
A propósito, só como nota de rodapé, no orçamento deste ano, já aprovado em primeira leitura na Knesset, mais de um bilhão de shekels a mais foi alocado para escolas religiosas, enquanto saúde, educação e outros setores perderam verbas.
É o mesmo governo que foi à guerra para impedir que o Irã obtivesse armas nucleares, citando, corretamente, o perigo do fundamentalismo religioso no controle de um Estado moderno. O argumento está certo. O problema é o espelho que ele levanta, um espelho que a coalizão de Netanyahu prefere não encarar e que alguns dos que me leem ajudaram a eleger, infelizmente.
No final de 1978, Yehuda Etzion, um dos fundadores do assentamento de Ofra, encontrou-se com Shabtai Ben-Dov, um pioneiro do pensamento sionista religioso daquela mesma comunidade. Etzion perguntou a Ben-Dov se destruir a Cúpula da Rocha no Monte do Templo em Jerusalém serviria como catalisador decisivo para a redenção messiânica. Se você quer fazer algo que resolva todos os problemas do povo judeu, respondeu Ben-Dov, faça. Etzion certamente queria. Junto com seus colegas na resistência judaica clandestina, reuniu dezenas de quilos de explosivos. A operação, que quase certamente teria lançado Israel em guerra com todo o mundo muçulmano, jamais foi executada, não por uma mudança de convicção, mas por dificuldades técnicas. Quero que você entenda isso com clareza: a contenção foi logística, não moral.
Costuma-se dizer que os fundamentalistas religiosos compreendem os limites da realpolitik, e a observação é verdadeira até certo ponto. O Irã não teria se tornado um ator regional relevante se seus líderes não tivessem demonstrado alguma capacidade de administrar um Estado moderno. Mas se a República Islâmica tivesse investido em seus próprios cidadãos os bilhões que gastou financiando grupos extremistas e terroristas ao redor de Israel, o Irã teria prosperado em vez de estagnar, com seu povo e não seus proxies colhendo os frutos de suas ambições. Khamenei declarou repetidas vezes seu desejo de destruir Israel. Em 2010, numa publicação ainda disponível online, descreveu Israel como uma entidade aterrorizante no Oriente Médio que seria sem dúvida destruída. Em 2018, escreveu que Israel é um câncer maligno que precisa ser removido e destruído. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad fez declarações semelhantes em muitas ocasiões. Pergunto: quem acredita que os líderes iranianos não eram sérios, ou que não teriam agido com base nessas declarações se tivessem oportunidade, precisa explicar por que o fundamentalismo xiita seria mais pragmático ou moderado do que outras formas de fundamentalismo religioso.
É fácil, no plano abstrato, aprender com a história judaica como o fanatismo religioso leva à destruição. Mas o que vejo ao meu redor me diz que a comunidade sionista religiosa demonstrou uma incapacidade persistente de aplicar essa lição a si mesma. Existe em Israel toda uma indústria da negação, segundo a qual o terrorismo judaico não existe, o messianismo é uma coisa maravilhosa e as palavras explícitas de políticos de alto escalão não significam realmente o que dizem. Em junho de 2019, num discurso na yeshivá Mercaz Harav em Jerusalém e numa entrevista à Rádio Kan, o então deputado Bezalel Smotrich declarou seu desejo de que Israel fosse governado segundo a Torá, como nos dias do rei Davi e do rei Salomão. Houve quem negasse que ele pretendia desmantelar a democracia. Mas há um problema elementar nessa visão que ninguém se deu ao trabalho de apontar: a Torá, na forma escrita e codificada que conhecemos, não existia nos dias de Davi e Salomão. Os estudiosos situam a composição dos textos do Pentateuco entre os séculos IX e V a.C., com partes significativas compiladas durante ou após o exílio babilônico, no século VI a.C., ou seja, depois dos reis que Smotrich invoca como modelo. Ele quer governar segundo uma Torá que não existia na época que cita como referência. Hoje ele é ministro das Finanças. É, além de perigoso, ignorante. Quando o rabino Kelner disse que toda sanção é legítima contra os que não observam os mandamentos, incluindo uma bala na cabeça, pessoas como eu e como a maioria dos que me leem agora, houve quem argumentasse que o governo deveria continuar financiando sua yeshivá. Digo a vocês: a negação não é confusão. É uma escolha. A escolha de vocês.
O que me perturba, aqui dentro deste cano enquanto ouço as explosões, é a ideia de que declarações são uma coisa e ações são outra. Essa ideia não se aplica a fundamentalistas, cuja lealdade absoluta à tradição, tal como a interpretam, é um princípio fundador tanto da religião quanto da identidade. É por isso que o Irã não pode obter armas nucleares. Netanyahu está certo nisso. Mas a razão não é apenas a hostilidade do Irã em relação a Israel. É a natureza do regime em si. O fundamentalismo religioso existe dentro de uma narrativa cósmica na qual a história é a arena para o cumprimento da vontade de Deus. Quando essa visão assume o controle de um Estado moderno, os resultados são catastróficos, não porque os crentes sejam singularmente cruéis, mas porque a lógica dessa visão é indiferente ao custo humano de sua realização.
O fundamentalismo religioso não se torna tolerável porque usa kipá, nem perde seu poder destrutivo porque fala hebraico. O fundamentalismo que esteve no poder no Irã trouxe àquele país décadas de repressão, ruína econômica e guerra regional. O fundamentalismo que ocupa o poder na atual coalizão israelense distribuiu armas a colonos, elogiou a queima de aldeias palestinas, propôs a deportação de cidadãos árabes e declarou sua intenção de governar pela escritura sagrada e não pela lei. A diferença de escala é real. A diferença de natureza não é. Um governo que financia um rabino que defende atirar em quem não observa os preceitos religiosos, pessoas como eu e como a maioria dos que me leem agora, enquanto vai à guerra contra um regime teocrático por ser um perigo para a civilização, não identificou uma contradição. Tornou-se uma. E eu estou aqui, neste cano de esgoto, enquanto eles vomitam merda pela boca e mísseis sobre nossas cabeças.