Só mudaram os nomes e os rostos, mas a fórmula de Netanyahu continua a mesma e consiste em deslegitimar os rivais políticos, fazer do medo uma arma contra os árabes e intimidar quem ameaça a sua sobrevivência política.

Em 5 de outubro de 1995, no dia em que o Knesset debatia o acordo de Oslo II, Benjamin Netanyahu discursou, aos quarenta e cinco anos e como líder da oposição, da sacada de um hotel sobre a praça Sião, em Jerusalém. Embaixo dele, uma multidão de dezenas de milhares gritava que o primeiro-ministro Yitzhak Rabin era traidor e assassino e pedia a sua morte, enquanto cartazes com montagens de Rabin de uniforme da SS e de keffiyeh passavam de mão em mão. Na mesma semana, Netanyahu argumentou que o governo não tinha “maioria sionista”, uma alusão aos votos dos deputados árabes de que Rabin dependia no Knesset.

Netanyahu sustenta que não viu os cartazes nem ouviu os gritos violentos, embora relatos da época contem que ele levantou a mão para tentar silenciar o coro que diz não ter ouvido. Um mês depois, na noite de 4 de novembro, Rabin desceu a escadaria da prefeitura de Tel Aviv em direção ao carro e foi baleado pelas costas pelo extremista Yigal Amir, e desde então Netanyahu nega que a sacada tenha tido alguma relação com a escadaria. Anos mais tarde, quando ainda era líder da oposição, o hoje presidente Isaac Herzog disse ao Knesset, na sessão anual em memória de Rabin, que estávamos reunidos ali por causa do que tinha acontecido em 1995 “naquela sacada maldita”. Em 2019, depois que Yair Netanyahu escreveu que Rabin tinha assassinado sobreviventes do Holocausto no Altalena, Yuval Rabin respondeu que a acusação dava continuidade ao cartaz de 1995 que vestira seu pai com o uniforme da SS e encerrou com a frase “não diga que não viu”.

Na noite do último domingo, cinco dias depois da eleição em que o bloco de Netanyahu perdeu a maioria, cerca de duas dezenas de pessoas se postaram diante da casa de Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior e hoje o homem com mais chances de substituir Netanyahu, e o chamaram de traidor. Um homem com um megafone, que a imprensa israelense identificou como Yossi Cohen, gritou que Eisenkot tinha assassinado o próprio filho, Gal, morto em combate na Faixa de Gaza, em dezembro de 2023, e disse à mulher dele, Hannah, que ela iria para junto do filho. Chamar de assassino um pai que enterrou o filho e prometer à mãe desse soldado um lugar ao lado dele é ameaça de morte. A manifestação terminou por volta das nove, sem prisões, e depois, segundo o Canal 12, uma mulher não identificada entrou no prédio e passou vários minutos à procura do apartamento dos Eisenkot, até ser notada por vizinhos, que a conduziram à saída.

No mesmo domingo, o juiz Noam Sohlberg afirmou, como presidente do Comitê Central de Eleições, que a eleição tinha transcorrido de forma regular e que as urnas refletiam a vontade dos eleitores; o Likud respondeu que, até o fim da investigação, uma nuvem escura pairava sobre os resultados, pediu na segunda-feira o adiamento da certificação e ouviu um não. Também na segunda-feira, Netanyahu descartou uma coalizão com as listas árabes e as acusou de “apoiar o terrorismo e negar a existência do Estado judeu”. Na terça-feira, o i24NEWS informou que o chefe do Shin Bet David Zini tinha pedido autorização para interrogar sob advertência Mansour Abbas, Ahmad Tibi e Sami Abu Shehadeh, além de um quarto político árabe cujo nome não pode ser divulgado, embora só tivesse apresentado provas contra o último dos quatro. O pedido faz parte do inquérito sobre suspeitas de financiamento estrangeiro e compra de votos que o Shin Bet abriu a pedido do Comitê Central de Eleições. Netanyahu escolheu Zini no ano passado para comandar o serviço, e o escolhido precisou perguntar mais de uma vez, segundo o Ynet, como Abbas se chamava antes de conseguir dizer o nome do deputado que pretendia interrogar. A procuradora-geral Gali Baharav-Miara respondeu que autoridades eleitas, como os demais cidadãos, não são interrogadas sem provas e que o Shin Bet retinha havia dois dias o material da investigação.

Até a segunda-feira, Netanyahu não tinha condenado o homem do megafone, e, como não posso entrar na cabeça dele, ofereço as duas razões que a minha imagina para esse silêncio. A primeira é que a acusação de traição gritada naquela calçada saiu da nota em que o Likud advertiu, depois da eleição, que partidos sionistas dispostos a cooperar com o bloco árabe seriam “perigosos para Israel”, de modo que condenar o grito significaria desautorizar o próprio partido. A segunda é a arte do álibi, que ele aprendeu numa sacada de Jerusalém. Em 1995, o álibi exigia uma mão levantada; em 2026, basta o silêncio, que não deixa imagem alguma para ser usada contra ele.

Pela mesma lógica, imagino que Netanyahu nada tenha a perder quando Zini vai atrás de três líderes de partidos árabes sem provas, na véspera do dia em que o presidente começa a ouvir as recomendações que podem entregar o mandato ao seu rival, porque a manobra lhe dá duas palavras, sob advertência, impressas ao lado dos nomes dos homens cujos partidos têm os dezenove assentos que podem decidir se ele fica na cadeira. Se a procuradora-geral resiste, tanto melhor para ele, e o Likud mostrou na terça-feira como a resistência dela pode ser vendida como acobertamento.

Em 1995, o traidor era o primeiro-ministro, um ex-chefe do Estado-Maior que precisava dos votos de deputados árabes para aprovar um acordo, e Netanyahu dizia que o governo de Rabin não tinha maioria sionista. Em 2026, o traidor é um ex-chefe do Estado-Maior que talvez precise das recomendações de deputados árabes para receber o mandato, e Netanyahu sugere, junto com o seu partido, que uma aliança com esses deputados seria traição.

Hoje, a pergunta sobre o que Netanyahu viu daquela sacada vale também no sentido contrário e passa a ser o que o homem do megafone vê quando olha para ele. Ele vê um partido sem comentários, um círculo em torno do primeiro-ministro em que ninguém condenou uma palavra, uma polícia que não fez prisões e um Shin Bet que só decidiu dar a Eisenkot guarda-costas do próprio serviço depois daquele domingo. Vê também o que aconteceu com Yair Golan, que comanda os Democratas e, segundo a petição que o partido levou à Suprema Corte em setembro, foi o único chefe de partido citado numa ameaça de morte presa a um tijolo atirado contra os estúdios do Canal 12 em julho. A polícia classificou o risco contra ele em quatro numa escala de seis, o mesmo nível atribuído a Eisenkot, e mesmo assim Golan precisou recorrer ao tribunal para ouvir do presidente da Suprema Corte, Isaac Amit, que o Shin Bet orientava a polícia sobre a proteção dele e que o melhor seria retirar a petição. Em 22 de outubro, numa cerimônia oficial no monte Herzl à qual o primeiro-ministro não comparece desde 2019, o presidente Herzog advertiu que palavras matam, e, na praça Rabin, Golan acusou o primeiro-ministro que tinha incitado contra Rabin em 1995 de criar agora as condições para o próximo Yigal Amir. Cinco dias depois, no dia da eleição, um homem com uma faca grande sob o casaco foi detido perto de Golan num evento de campanha no parque HaMesila, em Tel Aviv; o partido diz que ele avançou de forma ameaçadora, e a polícia, que escoltava Golan, nega que tenha havido tentativa de esfaqueamento. Um limite que recua um pouco a cada semana mostra ao próximo Yigal Amir onde esperar.

Alguns nomes não mudaram, e um deles estará entre os primeiros a passar hoje pela porta do presidente, quando a lista Sionismo Religioso-Zehut abrir as consultas. Esse nome pertence a Moshe Feiglin, que fundou o Zo Artzeinu com Shmuel Sackett, liderou o movimento quando o grupo bloqueou oitenta cruzamentos pelo país em agosto de 1995 em protesto contra o governo de Rabin e foi condenado por sedição em 1997. O parceiro dele na lista é Bezalel Smotrich, que tinha quinze anos em 1995 e que em 2021 disse aos deputados árabes da Lista Conjunta que eles estavam no Knesset por engano, porque Ben-Gurion não tinha terminado o serviço nem os tinha expulsado em 1948. A frase é do tipo que se raspa da sola do sapato e não o impediu de se tornar, no ano seguinte, o ministro das Finanças responsável pelo dinheiro de cada contribuinte árabe. Amanhã, o presidente recebe a Otzma Yehudit, que anunciou nesta semana que votaria contra a certificação dos resultados e é o partido de outro nome que não mudou, Itamar Ben-Gvir, o ministro a quem a nossa polícia hoje responde. Em outubro de 1995, aos dezenove anos, Ben-Gvir militava no Kach, o movimento kahanista posto na ilegalidade no ano anterior, e exibiu às câmeras de televisão o emblema roubado do Cadillac de Rabin e avisou que, se tinham chegado ao carro, chegariam também a ele. Um mês depois, Yigal Amir chegou a Rabin; ele tinha ligações frouxas com o Eyal, um grupo minúsculo de extrema direita fundado por um ex-militante do Kach.

Se eu fosse Gadi Eisenkot, agradeceria aos vizinhos antes de agradecer ao Shin Bet. Há trinta e um anos, nesta mesma noite, foram precisos três tiros ao pé da escadaria da prefeitura de Tel Aviv para descobrirmos onde ficava o limite de Israel; no domingo, os vizinhos dos Eisenkot traçaram esse limite sem esperar para saber o que a desconhecida queria. No país que Netanyahu continua testando, o limite passou a depender de quem enxerga, e por isso peço ao leitor que olhe para Rabin nesta fotografia, de terno e gravata diante de nós, israelenses, sem o uniforme da SS e sem a keffiyeh que lhe puseram na praça Sião, e que não diga que não viu.