Em 1511, Erasmo de Roterdã publicou o Elogio da Loucura (Moriae Encomium), um discurso que a própria Loucura pronuncia em primeira pessoa e no qual se apresenta, sem modéstia alguma, como a divindade que alegra deuses e homens. A prova que ela oferece está nos rostos da assembleia, que pareciam voltar pesados e pensativos da consulta a um oráculo e se iluminaram de um contentamento novo no instante em que ela subiu para falar, antes que dissesse uma palavra. A Loucura considera natural fazer o próprio elogio e observa mais adiante que os ouvintes mais ambiciosos aplaudem com um sorriso as palavras estrangeiras que não acompanham e sacodem as orelhas como um burro, para parecer que entendem mais do que os vizinhos. Erasmo precisou de uma deusa para confessar que a plateia aplaude antes de ouvir, porque naquele tempo um rei de verdade teria tido o bom senso de calar.
Pouco mais de cinco séculos depois, no sábado, 10 de outubro, a Loucura encontrou na F&M Bank Arena de Clarksville, no Tennessee, um orador disposto a dispensar a alegoria e a falar em nome próprio. Donald Trump contou a história de um amigo que sofre de medo de palco, mal que o presidente conhece apenas de ouvir falar, descreveu o amor que sentia lá de cima do palco e concluiu que poderia dizer as coisas mais estúpidas e a plateia aplaudiria. A plateia riu e aplaudiu na mesma hora, o que poupou ao orador o trabalho de provar a tese. Em seguida Trump imitou o fã apaixonado com a voz derretida, garantiu que aquilo era verdade e acrescentou que ele e os seus não diziam coisas estúpidas, que diziam coisas de bom senso, como querer uma fronteira, impostos baixos e Forças Armadas fortes. O bom senso chegou depois dos aplausos, e a ordem dos acontecimentos reproduziu com fidelidade a cena do livro de Erasmo, em que os rostos da assembleia se iluminam antes da primeira palavra. Os defensores de Trump têm razão quando lembram que o presidente brincava, e a brincadeira tinha a franqueza de quem sabe que a plateia aplaude antes de ouvir e governa apoiado nisso.
Dois dias depois, na segunda-feira, 12 de outubro, Trump discursava no Covelli Centre de Youngstown, no Ohio, quando uma mulher se levantou com uma camiseta que exigia a divulgação dos arquivos de Jeffrey Epstein, e pelo menos dois homens caíram sobre ela. Um deles a socou no rosto, puxou-a pelos cabelos e passou um braço em volta do pescoço dela, enquanto as arquibancadas entoavam em coro as letras USA. Trump comentou ao microfone que se tratava de um manifestante pago pela esquerda para destruir o país, chamou-o de escória, avisou que ele voltaria para a casa da mãe, zombou do peso dele e receitou uma dieta urgente, cada palavra no masculino, porque do palco ele enxergava na arquibancada apenas alguém que não aplaudia. Ele também perguntou à plateia se ela não amava as forças da lei, no exato momento em que agentes do xerife conduziam a mulher escada abaixo e deixavam nos seus lugares os homens que a tinham agredido.
A camiseta pedia o cumprimento de uma lei que a Câmara dos Representantes aprovara em 18 de novembro de 2025 por quatrocentos e vinte e sete votos a um, que o Senado endossara por consenso poucas horas depois e que Trump sancionara no dia seguinte, depois de meses de resistência. Na declaração que divulgara ao sancioná-la, Trump atribuíra a quase unanimidade a um pedido que ele mesmo fizera, e nem a Loucura de Erasmo faria melhor o próprio elogio. O único voto contrário viera de Clay Higgins, republicano da Louisiana e defensor fervoroso de Trump, e não consta que alguém lhe tenha puxado o cabelo. A mulher de Youngstown apanhou, portanto, por exigir que se honrasse a assinatura do homem que a chamava de escória. Jon Husted estava no palco como o candidato republicano ao Senado que Trump fora apoiar, e dias depois, ao comentar a agressão, declarou que quem interrompe um evento político sofre consequências. Até esta semana, nenhuma acusação foi apresentada contra os homens que agrediram a mulher, e as consequências recaíram apenas sobre a pessoa que levou os socos.
Um presidente que se gaba de uma lei e chama de escória quem pede o cumprimento dela comanda um governo dos absurdos, e uma arena que entoa as letras USA enquanto uma mulher apanha aplaude com um sorriso o que não entende e sacode as orelhas como o burro de Erasmo.
Eu gostaria de olhar para esses dois comícios como quem observa os costumes de uma terra estrangeira, mas a nossa própria plateia me nega esse conforto, porque também entre nós a Loucura encontrou oradores dispostos a falar em nome dela e um público que aplaude antes de ouvir. No dia 27 de outubro escolhemos os cento e vinte que vão formar a plateia da Knesset, e confesso ao leitor que procuro, entre os que pedem o meu voto, gente capaz de ficar sentada quando um ministro poderoso disser as coisas mais estúpidas, por mais que boa parte da casa se levante para elogiá-lo.