Em 336 antes da era comum, muitos políticos e sábios foram cumprimentar Alexandre em Corinto, onde o jovem rei da Macedônia acabava de chegar, e um homem de Sinope chamado Diógenes preferiu continuar deitado ao sol no subúrbio de Craneion. O rei foi até ele, perguntou se precisava de alguma coisa e ouviu o pedido de que saísse um pouco da frente do sol. Na volta, enquanto os companheiros riam, disse-lhes que, se não fosse Alexandre, seria Diógenes, e continuou a ser Alexandre pelos treze anos seguintes, o bastante para levar o seu exército até a Índia.

Segundo a tradição, Platão chamava Diógenes de Sócrates enlouquecido, e os relatos que sobreviveram descrevem um homem que dormia num jarro de barro e que, perguntado de onde vinha, respondia que era cidadão do mundo, isto é, de lugar nenhum. A felicidade dele cabia num jarro e dispensava qualquer cidade, o homem mais poderoso do seu tempo não tinha nada para lhe dar além de sair da frente do sol, e os dois morreram em 323, no mesmo dia, segundo Plutarco, um na Babilônia e o outro em Corinto.

Em 19 de março deste ano, um centro da Universidade de Oxford, o instituto Gallup e uma rede ligada à ONU publicaram a classificação mundial da felicidade, que nos colocou em oitavo lugar entre 147 países pelo segundo ano seguido e pôs os nossos jovens com menos de 25 anos, a maioria de farda ou na reserva, em terceiro na sua faixa de idade. O levantamento cobre justamente 2023, 2024 e 2025, os três anos da guerra, e uma especialista ouvida pelo Ynet admitiu que o resultado pode parecer absurdo e explicou por que faz sentido, o que não me impede de confessar que um povo feliz debaixo de mísseis tem a aparência de um Sócrates enlouquecido.

Na Universidade Bar-Ilan, a pesquisadora Anat Fanti atribuiu o nosso oitavo lugar a laços de família, comunidade, fé e sentimento de pertencimento, e o Escritório Central de Estatísticas confirmou o fenômeno ao encontrar, nos seus dados até 2024, 91,1% de israelenses de 20 anos ou mais satisfeitos com a vida. A nossa felicidade não cabe num jarro, porque é feita da vida em comum que a outra dispensava, e por isso depende da saúde do país.

O avesso dessa felicidade aparece na mesma classificação, que nos põe em 39º lugar entre os povos que mais sentem preocupação, tristeza e raiva, depois do 119º que ocupávamos antes do 7 de outubro. No fim de agosto, às vésperas do ano novo judaico, o Instituto de Democracia de Israel registrou que 59% dos entrevistados consideram bom o próprio humor e 61%, ruim o humor do país, que só 19,5% dos judeus e 16% dos árabes se dizem otimistas quanto à coesão social, o nível mais baixo do ano, e que 81% dos judeus gostam das refeições de família nos feriados. Eu vejo nesses números uma felicidade que se sustenta à mesa de família enquanto o país de que ela depende perde a confiança em si mesmo.

O Instituto também separou por campo político o humor pessoal dos judeus, e o resultado me deixa numa posição desconfortável, porque 30,5% dos que se dizem de direita descreveram o próprio humor como ruim, contra 52% no centro e 63% na esquerda. Eu sou de esquerda, e se a felicidade servisse de atestado de sanidade o meu campo seria o manicômio do país, enquanto a direita assinaria as internações de jaleco branco e bom humor.

O eleitor de direita dirá que a tristeza da esquerda é despeito de quem perdeu o poder em 2022, e acrescentará que, segundo o Instituto de Política do Povo Judeu, 76% dos judeus do seu campo acreditam que Israel vive uma fase de melhora que vai se aprofundar. Se ele me acompanhou até aqui, eu lhe mostro a pesquisa de agosto, que encontrou na esquerda, no centro e na direita uma maioria que considera ruim o humor do país, e em que pouco mais da metade dos seus correligionários vê grande probabilidade de que parte dos derrotados em 27 de outubro recuse o resultado e reaja com força, um temor que alcança 56% dos israelenses.

O mesmo eleitor pode objetar, por fim, que nenhum governo fabrica felicidade e que o oitavo lugar prova que este não a destruiu, e eu concordo com a primeira metade da frase, porque o poder não tem nada para nos dar, e discordo da segunda, porque o levantamento de março nos põe em 107º na percepção de corrupção, um número que desenha a sombra que o Estado projeta sobre nós.

Em 27 de outubro vamos às urnas felizes em casa e desconfiados da vida pública, e o meu voto vai pedir ao próximo governo apenas que saia da frente do sol e deixe de fazer sombra sobre o país de que a nossa felicidade depende.