Na penumbra do salão da Assembleia Geral das Nações Unidas, onde o destino do mundo é frequentemente decidido por homens de terno que falam em nome de povos que nunca consultaram, o silêncio que se seguiu à votação de março não foi o de um impasse. Foi o de uma ruptura. Cento e vinte e três nações decidiram que o passado não está morto, e que, no que diz respeito ao tráfico transatlântico de escravos, ele sequer começou a ser enterrado. Sob o peso do direito internacional, o comércio de almas humanas foi elevado à condição de crime mais grave contra a humanidade, com todas as consequências jurídicas e financeiras que essa classificação implica.
A resolução, um texto denso que exala o cheiro de arquivos coloniais e de justiça que chegou tarde demais para os que mais precisavam dela, não se limitou ao memorialismo. Introduziu no léxico diplomático palavras que assustam tesouros nacionais com a eficiência de uma auditoria inesperada. Reparações. Restituição de bens saqueados. Imprescritibilidade do trauma. O Sul Global, liderado por Gana, articulou sua dor numa linguagem que as potências do Norte não podem simplesmente arquivar num museu e visitar nas tardes de domingo com os filhos, enquanto os netos dos escravizados que financiaram esses museus não têm dinheiro para o bilhete de entrada.
Sou judeu. Brasileiro/israelense. Vivo no norte de Israel, num país fundado precisamente porque o mundo decidiu, tarde demais e com sangue demais, que o sofrimento histórico de um povo tem consequências morais que não prescrevem. Conheço essa lógica melhor do que a maioria. É ela que justificou a criação do Estado de Israel, que fundamentou as reparações alemãs, que fez com que o mundo reconhecesse que o que foi feito aos judeus não podia ser esquecido porque era inconveniente lembrar. E foi com essa memória pesando nos ombros que assisti, com a vergonha específica de quem reconhece a contradição no próprio espelho, ao que aconteceu no painel de votação.
Os Estados Unidos, Israel e Argentina formaram uma tríade de dissidência que ficou ilhada num plenário onde cento e vinte e três países votaram sim e os antigos impérios, Londres, Paris, Lisboa, Bruxelas, Amsterdã, escolheram o refúgio seguro da abstenção. Israel votou não. E ao votar não, colocou-se ao lado dos que acreditam que o sofrimento histórico tem prazo de validade quando não é o seu próprio sofrimento que está em causa. Não consigo defender essa posição, não porque seja ingênuo sobre as complexidades diplomáticas ou sobre o receio israelense de criar precedentes jurídicos em tempos de guerra, mas porque sei o que significa pedir ao mundo que reconheça que o que foi feito ao seu povo foi um crime que não prescreve. Temos essa conversa há oitenta anos. E então votamos não.
A abstenção europeia não é neutralidade. É a pose elegante de quem deve uma fortuna e prefere mudar de assunto a assinar um cheque. A Europa que se absteve no salão da ONU é a mesma cujas ferrovias, cujos parlamentos neogóticos, cujas universidades centenárias e cujos museus de mármore foram construídos com o dinheiro extraído do corpo da África. Leopoldo II da Bélgica matou entre dez e quinze milhões de congoleses para extrair borracha e marfim que financiaram a industrialização europeia. A França esvaziou o Senegal, o Mali, a Costa do Marfim e o Níger de recursos que alimentaram o bem-estar social parisiense, os mercados de queijo e as férias pagas de agosto. A Inglaterra drenou o subcontinente indiano e o continente africano com uma eficiência que os economistas de hoje ainda citam como modelo. Portugal, o primeiro a cruzar o Atlântico com navios carregados de seres humanos acorrentados, absteve-se com a solenidade de quem não deve nada a ninguém. A Holanda, cujos canais e moinhos são cartões postais da civilização ocidental, construiu parte dessa civilização sobre o trabalho forçado no Suriname, na Indonésia e na África.
O estado de bem-estar europeu não nasceu do clima temperado nem do engenho singular dos povos do norte. Nasceu da Conferência de Berlim de 1884, onde catorze nações europeias se reuniram para dividir um continente inteiro sem consultar um único africano, e decidiram que os recursos, a terra e o trabalho de quatrocentos milhões de pessoas eram propriedade legítima de quem tinha os canhões. O que a África perdeu nesse período não tem equivalente na história moderna. Não foi apenas riqueza material. Foi a possibilidade de acumulação, de desenvolvimento autônomo, de construir as instituições que a Europa depois exigiu que ela tivesse como condição para ser tratada como igual.
A resolução paira agora sobre os museus da Europa e os bancos da América como uma conta que alguém esqueceu de pagar e que os juros tornaram impagável. Prevê fundos de desenvolvimento, a devolução de artefatos retirados à força dos países que os produziram, e o reconhecimento formal de que a prosperidade de uns tem endereços anteriores nos corpos e nas terras de outros. O status quo europeu foi pago pela África. Cada estrada. Cada hospital. Cada biblioteca. Cada pensão. A conta chegou à Turtle Bay.
Penso nisso tudo e penso no preço que Israel pagará por este voto. Não amanhã. O isolamento não se constrói num dia. Constrói-se voto a voto, cada vez que um país que foi vítima da história decide que as vítimas de outras histórias não merecem a mesma solidariedade que ele exigiu para si próprio. Israel já está mais isolado do que meu governo admite. Já perdemos apoio na América Latina, na África, em partes da Ásia que durante décadas foram nossos aliados silenciosos. Cada voto como este acelera esse processo. E quando precisarmos que o mundo nos ouça, e esse dia virá porque sempre vem, vamos descobrir que gastamos o crédito moral que a história nos deu num voto contra os escravizados numa tarde de março em Nova York. Israel deveria saber melhor do que ninguém o que custa ser ignorado pela história. Nessa tarde, escolhemos estar do lado errado dela.​​​​​​​​​​​​​​​​