Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, dedicou anos a tentar entender por que o mundo colapsou em 1177 antes da era cristã. No fim da Idade do Bronze, as civilizações do Mediterrâneo oriental, egípcios, hititas, micênicos, cananeus, cipriotas, babilônios, formavam uma rede de interdependência tão sofisticada que os modernos a reconheceriam sem dificuldade. Trocavam estanho do Afeganistão, cobre de Chipre, trigo do Egito, têxteis da Síria. Escreviam cartas diplomáticas em argila. Tinham embaixadores, tratados, rotas comerciais que cruzavam o Mediterrâneo com a regularidade dos navios de hoje. E então, em poucas décadas, tudo desapareceu. Não os micênicos. Não os hititas. Não os cananeus. Todos. De uma vez. Cline chama o que aconteceu de tempestade perfeita, uma convergência de falhas múltiplas e interconectadas, secas, terremotos, invasões, revoltas internas, colapso das rotas comerciais, que nenhuma civilização, por si só, teria sobrevivido, e que todas juntas não puderam resistir. O que o livro não diz explicitamente, mas o que qualquer leitor atento percebe, é que foi precisamente a interdependência que as destruiu. O que as tornava ricas era o que as tornava frágeis. A rede que sustentava o mundo era a mesma rede que, ao se romper, arrastou tudo consigo.
Penso na Europa não com o desprezo fácil de quem olha de fora, mas com a tristeza específica de quem amou o que ela representa e vê o que ela está se tornando. A Europa construiu, nas décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, a mais sofisticada tentativa de civilização cooperativa que a humanidade já produziu. Instituições supranacionais, direitos codificados, estados de bem-estar, fronteiras abertas, a ideia de que o continente que havia produzido duas guerras mundiais em menos de trinta anos podia reinventar-se como um projeto de paz permanente. Era uma aposta audaciosa. Por décadas, funcionou. E então a Europa começou a confundir o projeto com o conforto que ele produzia, e o conforto com um direito adquirido, e o direito adquirido com a dispensa de qualquer responsabilidade além das suas próprias fronteiras.
O problema é que as fronteiras da Europa nunca foram onde os europeus imaginavam que eram. A riqueza que financiou o estado de bem-estar, os hospitais públicos, as universidades gratuitas, as férias pagas, os mercados de fim de semana com queijos artesanais e vinhos de denominação de origem controlada, essa riqueza tinha endereços anteriores. Tinha endereços no Congo, cuja borracha e cujo marfim financiaram a industrialização belga enquanto o rei Leopoldo II transformava o país numa plantação de horror, matando entre dez e quinze milhões de pessoas para garantir as cotas de produção. Tinha endereços na Costa do Marfim, cujo cacau alimentou o chocolate suíço e francês enquanto a população local não tinha acesso a hospitais. Tinha endereços em Angola, em Moçambique, no Senegal, no Níger, em toda a África que a Europa dividiu num mapa entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, na Conferência de Berlim, sem consultar um único africano, e que depois administrou durante décadas como uma fazenda de extração, retirando recursos, capital, mão de obra e dignidade, e deixando para trás fronteiras artificiais que até hoje produzem guerras, estruturas de poder corrompidas construídas sobre o modelo colonial, e a pobreza que agora empurra pessoas para o Mediterrâneo em botes infláveis.
Os africanos que chegam hoje às costas europeias não chegam do nada. Chegam de um continente que foi sistematicamente espoliado por exatamente aqueles países que agora os recusam à entrada. Chegam do Congo, de Mali, da Líbia, do Senegal, do Níger, países cujos recursos naturais financiaram e continuam financiando a prosperidade europeia através de acordos que reproduzem a lógica colonial com linguagem de mercado livre. Chegam porque as mudanças climáticas, produzidas em proporção muito maior pelos países industrializados do que pelos países africanos, estão tornando inabitáveis regiões inteiras do Sahel. Chegam porque os conflitos que destroem os seus países têm frequentemente a impressão digital de intervenções ocidentais mal concebidas e abandonadas a meio caminho. E chegam para encontrar uma Europa que construiu muros, que externaliza o controle das fronteiras para ditadores líbios, que financia campos de detenção no Níger e na Turquia, e que debate, com a linguagem técnica da política de imigração, até onde pode ir na violação dos direitos que codificou para si mesma.
Cline acredita que há noventa por cento de probabilidade de um colapso global de sistemas no próximo século. Não diz isso com satisfação. Diz com a sobriedade de quem passou décadas estudando o que acontece quando redes interdependentes atingem o ponto de ruptura sem que ninguém, dentro delas, tenha querido acreditar que o ponto de ruptura estava próximo. O que ele observou na Idade do Bronze tardio foi que as civilizações mais sofisticadas, as mais conectadas, as que tinham mais a perder, foram as que menos conseguiram adaptar-se quando as condições mudaram, precisamente porque o seu nível de conforto havia se tornado o limite do seu pensamento. Não imaginavam um mundo diferente porque não precisavam imaginar. Até que precisaram, e já era tarde.
A Europa de hoje não está no mesmo ponto. Mas está no mesmo caminho. Uma civilização que construiu a sua identidade em torno dos direitos universais e que aplica esses direitos seletivamente, que defende a dignidade humana nos discursos e a nega nas fronteiras, que insiste na responsabilidade coletiva dentro das suas fronteiras e recusa qualquer responsabilidade coletiva fora delas, essa civilização não está sendo hipócrita apenas no sentido moral. Está sendo frágil no sentido estrutural. A rede que a sustenta, as cadeias de abastecimento, as rotas energéticas, a estabilidade política dos países fornecedores, a legitimidade das suas instituições aos olhos do resto do mundo, depende de uma reciprocidade que a Europa tem recusado sistematicamente. E uma rede que se recusa a ser recíproca é uma rede que se aproxima do ponto de ruptura com cada decisão que toma.
Em 1177 antes da era cristã, as cartas de argila entre os reis do Mediterrâneo continuavam a chegar até quase o último momento. Algumas das últimas que sobreviveram mostram pedidos de socorro, relatos de cidades em chamas, súplicas por grão e por soldados. As respostas nunca chegaram. Não porque os destinatários fossem cruéis. Porque também estavam a colapsar, cada um ocupado demais com o seu próprio desastre para atender ao desastre do vizinho. O conforto não os havia tornado maus. Havia-os tornado míopes. E a miopia, como Cline documenta com a paciência de quem escava camada por camada, é a causa de colapso mais comum da história humana.​​​​​​​​​​​​​​​​