A Guerra dos Judeus, de Flávio Josefo, foi o primeiro livro de história que li de verdade. Encontrei-o na biblioteca do Colégio Israelita Brasileiro de Porto Alegre, uma cidade no sul do Brasil onde cresci. Não me lembro se cheguei a devolvê-lo. O que me lembro é que, pela primeira vez, entendi que a história que me contavam sobre os macabeus não era exatamente aquela. O heroísmo tinha outras camadas. Ésquilo disse que a primeira vítima da guerra é a verdade. Josefo me ensinou isso antes que eu soubesse quem era Ésquilo.
Há uma história que Josefo conta sobre si mesmo. Ele a conta com cuidado, com a precisão de um homem que já havia decidido como desejava ser lembrado. No ano 67 da era comum, cercado pelos romanos em Jotapata — uma fortaleza no alto de uma colina na Galileia, no que é hoje o norte de Israel, não muito longe de Nazaré — ele e seus companheiros se esconderam numa caverna após a queda da cidade. Diante da captura iminente, o grupo decidiu por um pacto de suicídio coletivo. Cada homem mataria o próximo. O último se mataria. Josefo, contudo, propôs um sorteio. E através de astúcia, ou sorte, ou alguma combinação das duas coisas que ele preferiu não detalhar, acabou sendo um dos dois últimos. Os dois últimos, claro, preferiram se render.
Mas Josefo não se rendeu como um prisioneiro comum. Pediu audiência com o general Vespasiano e declarou ter recebido uma revelação divina. Profetizou que aquele general, naquele momento apenas um homem de guerra a serviço de Roma, se tornaria imperador. Tu serás César, disse ele a Vespasiano. Tu e teu filho. Vespasiano não o executou. Guardou-o. E quando Nero morreu e o Império entrou em colapso e os generais disputaram o trono, Vespasiano de fato ascendeu ao poder. A profecia havia se cumprido. Josefo foi libertado, adotou o nome da família imperial, recebeu cidadania romana, uma pensão do erário e passou o resto dos seus dias em Roma escrevendo sobre a guerra que havia traído.
Pensei muito nessa história. Não porque seja vergonhosa, embora possa ser. Mas porque é tão profundamente, tão desconfortavelmente humana. Josefo queria viver. Escolheu a vida em vez da ideia. E passou o resto dos seus dias escrevendo sobre a ideia, da segurança do outro lado. Hoje entendo que Flávio Josefo foi, na prática, a primeira delação premiada da história. Trocou os seus por imunidade, pensão e posteridade. E teve a genialidade, ou o descaramento, de escrever ele mesmo o próprio dossiê. Sendo honesto comigo mesmo: não sei se eu teria feito diferente.
Do outro lado dessa história estavam os que fizeram a escolha oposta, e a fizeram por todos os demais.
Os Zelotes não se consideravam fanáticos. Ninguém nunca se considera. Pensavam em si mesmos como os últimos judeus sérios num mundo de compromisso e rendição. A submissão a Roma era apostasia. O imposto pago a César era uma obscenidade teológica. E os Sicários, com suas adagas curvas escondidas sob as vestes, foram ainda mais longe: moviam-se pelos mercados de Jerusalém como sombras, matando colaboradores, matando moderados, matando qualquer um cuja disposição de viver ao lado do inimigo lhes parecesse uma forma de traição. Eram homens muito certos de si. A certeza, na minha experiência, é a coisa mais perigosa que um ser humano pode carregar.
Jerusalém não caiu porque Roma era forte. Jerusalém caiu porque os homens dentro dela não conseguiam concordar sobre para que servia Jerusalém. Enquanto Tito esperava do lado de fora das muralhas, as facções rivais internas queimavam os celeiros umas das outras. Deixem-me dizer isso de novo, porque merece ser dito devagar: eles queimaram a comida. Numa cidade sitiada. Queimaram a comida para que seus inimigos dentro das muralhas não pudessem comer. Esses inimigos eram outros judeus.
Tito não destruiu Jerusalém. Ele simplesmente chegou depois que Jerusalém já havia começado a se destruir.
O Templo ardeu em agosto do ano 70. O que se seguiu não foi uma derrota em nenhum sentido ordinário. Foi dispersão, escravidão, o início da Diáspora: o longo silêncio de um povo aprendendo a carregar o lar dentro do próprio corpo porque o lar de pedra havia deixado de existir. Dois mil anos de existir em outro lugar, de ser o estranho, de construir e ser expulso e construir de novo. E os últimos Zelotes, na rocha de Massada, mataram suas próprias famílias e depois a si mesmos para não serem capturados. Chamaram isso de dignidade. A história oficial de Israel também chamou, mas não de imediato. Foi preciso esperar o século XX e o arqueólogo e general Yigael Yadin, que nos anos 1960 escavou Massada e transformou um suicídio coletivo numa rocha no deserto em símbolo nacional, em ato fundador, em prova de que o povo judeu prefere a morte à submissão. É uma história bonita. É também, como quase todas as histórias bonitas sobre guerra, uma versão. A história não precisa ser verdadeira. Precisa ser útil. E Massada foi extremamente útil para uma nação jovem que precisava de heróis e tinha, à disposição, apenas ossos e silêncio.
Não vou discutir com os mortos. Mas direi isto: não deixaram ninguém para construir nada. Quem construiu foi o povo da Diáspora, aquele que aprendeu a sobreviver sem território, sem templo, sem exército. Aquele que Josefo, de certa forma, escolheu representar ao se render. A ironia é que a nação que hoje celebra Massada foi construída pelos que fizeram a escolha oposta.
A ideia, no fim, consumiu as pessoas que nela acreditavam com mais fervor.
Aconteceu recentemente em Bnei Brak. Duas jovens mulheres, soldadas do exército de Israel, entraram na cidade por um assunto de rotina. A palavra se espalhou de que eram da polícia militar. Em minutos, centenas de homens estavam nas ruas. Alguém precisou escondê-las num apartamento para que não fossem linchadas. A polícia chegou. Um carro foi virado. Uma motocicleta pegou fogo. Mais de duas dúzias de pessoas foram detidas. Paro aqui um momento. Duas soldadas israelenses precisaram ser escondidas para sobreviver dentro de uma cidade israelense. Não na Cisjordânia. Não em território hostil. Em Bnei Brak. E por todo o Israel, a história foi absorvida pelo debate maior que vem dilacerando o país há anos: se a comunidade ultraortodoxa deve compartilhar o peso do serviço militar numa nação que está, neste exato momento, em guerra.
Quero ser honesto sobre o que sinto ao ler isso, porque a honestidade é a única coisa que ainda tenho a oferecer.
Sinto tristeza. Não raiva, ou não apenas raiva. Tristeza.
Sou judeu. Vivo em Israel. Não nasci aqui. Escolhi estar aqui, e essa distinção importa mais do que pode parecer, porque quem escolhe carregar um país nas costas sem ter sido obrigado a fazê-lo sabe exatamente o peso do que está carregando. Conheço a diferença entre viver em Israel e fazer parte de Israel. Vivo essa diferença todos os dias. E essa diferença, aprendi, está custando vidas.
Não herdei este país. Escolhi-o. Escolhi sua língua e sua luz e sua impossível, exaustiva e magnífica insistência em existir. Escolhi também suas guerras, porque não se pode escolher um país e deixar de fora as partes difíceis. Não é assim que o amor funciona. Não é assim que a cidadania funciona.
E então pago. Nos impostos que sustentam os que se recusam a servir ao lado do restante de nós. Na ansiedade de viver num país que debate com fervor teológico se todos os seus filhos merecem proteção igual. No silêncio constrangido de quem ama Israel demais para deixar de acreditar nele, e sabe de mais para fingir que está tudo bem.
Um país em guerra pede algo de seu povo. Não tudo. Não obediência cega nem a rendição da consciência. Mas algo. A disposição de estar, ainda que a contragosto, no espaço compartilhado de um destino comum. Quando uma comunidade decide que suas obrigações espirituais a isentam inteiramente desse espaço, está fazendo uma reivindicação que nenhuma sociedade democrática pode absorver indefinidamente: a de que algumas vidas são sagradas demais para serem arriscadas, enquanto outras não são.
Os jovens que morreram em Gaza não escolheram ser menos sagrados.
Vivi o suficiente para saber que as sociedades geralmente não desmoronam num único momento dramático. Elas se desfiam. Desenvolvem, aos poucos, um desprezo pela ideia de que somos responsáveis uns pelos outros. E então, um dia, alguém olha ao redor e descobre que a coisa que tentava proteger já não existe, porque ninguém estava disposto a pagar o preço de protegê-la juntos.
Josefo sobreviveu. Escreveu tudo. Nos deixou o relato completo do que acontece quando um povo, sitiado por fora, escolhe fazer guerra contra si mesmo por dentro. Tivemos dois mil anos para ler seu testemunho.
A questão não é se lembramos da história. Lembramos. A ensinamos. A choramos todo ano.
A questão é se a compreendemos. Se Israel, no meio de uma guerra que está matando seus filhos, encontrará a seriedade moral para exigir que pertencer a um país significa compartilhar seus perigos, ou se continuará concedendo uma isenção que a história já julgou, uma vez, com clareza devastadora.
Não sei a resposta. Não sou um homem fingindo não tê-la. Sou alguém que escolheu este lugar, que caminha por suas ruas, que ouve as sirenes, que lê os nomes dos mortos, que paga seus impostos e pergunta, com paciência cada vez menor, por que o fardo não é dividido igualmente por todos que se beneficiam da sobrevivência deste país.
Os celeiros estão queimando de novo. Estou aqui, olhando. E Tito é muito paciente.