A narrativa que insistem em silenciar
por David Windholz| 14.02.26| Artigo
Ao contrário da atual narrativa de extremistas palestinos e israelenses de que só um lado pode vencer neste conflito, a situação W-L (winner-loser) só levará a uma situação L-L, nenhum lado sairá ganhando. Os palestinos não terão sua liberdade e nação e os israelenses não terão segurança. No contexto atual no qual o governo de Bibi Netanyahu, governo de extrema direita, fascista, anti-democrático, messiânico e fundamentalista por um lado e os governos da Hamas-Hizbollah-Hutis-Irã, fundamentalistas, anti-democráticos e que podem ser definidos de fascistas e de extrema direita por sua postura policial, dominam o espaço político com estratégia do medo e ódio, gerando a violência, se torna impossível a busca a uma solução pacífica, que levaria a uma situação de W-W – a autodeterminação ao povo palestino e segurança ao povo de Israel.
Durante todos esses anos venho dizendo que existem correntes em ambos os lados a favor de uma solução W-W. São mais de 150 organizações israelenses e palestinas que trabalham juntas na tentativa de caminhar para a reconciliação e a paz. Já propus várias vezes às lideranças da comunidade de realizar um documentário sobre isso. Infelizmente não consigo encontrar as vozes que poderiam apoiar tal projeto. Mas, a esperança é a última que morre, e eu sempre caminharei neste caminho pela paz. “Caminhante não há caminho , caminho se faz ao andar” e “Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”, são minhas duas mantras para não perder a esperança.
Nos meus contatos na Palestina, venho há 12 anos mantendo contato com os embaixadores do Brasil na Palestina e em Israel. Com o embaixador Alessandro Candeas realizamos uma série de encontros entre algumas dessas organizações e embaixadores da América Latina, em Ramallah, na embaixada. Esse contato segue, mesmo tendo ele sido transferido a Portugal. Através dele, no início do ano deu uma entrevista a Henrique Barbi do jornal O Globo. A entrevista foi sobre duas ativistas da Organização Family Circle – famílias palestinos e israelenses que perderam um ente querido na guerra e decidiram encaminhar pela reconciliação, esperança e paz. Uma entrevista emocionante e que reflete uma nova narrativa na mídia – organizações palestinas e israelenses trabalhando juntas, sendo chamadas de traidoras pelos extremistas de cada uma das sociedades. Mas, sem ter medo transmitem a mensagem que existe a possibilidade da Paz e da reconciliação entre os povos. No mais doloroso deste conflito, pessoas que perderam seus filhos e filhas, maridos e esposas, irmãos e irmãs, resgatam todas as forças do bem, pelo reconhecimento e compaixão pela dor do outro, e são capazes de dialogar e criar laços inimagináveis de amizade.
Nesta caminhada para mudar a narrativa atual trago mais um depoimento. De um palestino, Samer Sinijlawi, sobre o dia de hoje em Gaza. Depoimento de esperança de um futuro no qual os palestinos de Gaza possam reconstruir Gaza em todos os sentidos – físico, econômico, político e principalmente humano.
Samer Sinijlawi, um ativista político palestino da Cidade Velha de Jerusalém, passou cinco anos em uma prisão israelense na adolescência por participar da Primeira Intifada, na década de 1980. Ele acaba de escrever um artigo para a edição de dezembro da revista The Atlantic, intitulado “Como Construir um Estado Palestino” na versão impressa e “Minha Esperança para a Palestina” na versão online. Na prisão, ele aprendeu a negociar e interagir com os israelenses como pessoas, e não simplesmente como carcereiros e opressores. Fora da prisão, tornou-se um importante ativista e membro do Fatah, o principal partido dentro da OLP e da Autoridade Palestina.
Ele escreve como defensor da solução de dois Estados, defendida conjuntamente pelo ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert e por Nasser al-Kidwa, ex-ministro palestino das Relações Exteriores. Sinijlawi considera necessário que ambos os povos “mudem radicalmente seu pensamento — e sua liderança”. Ao identificar “o primeiro obstáculo [como] Netanyahu e seus aliados racistas”, com a necessidade de os israelenses votarem para tirá-los do poder, ele também passou a ver a liderança do presidente Mahmoud Abbas como “corrupta e ineficaz”. É essa capacidade de enxergar ambos os lados implicados no prolongamento desse conflito sangrento que o torna singular.
“É difícil para o meu próprio povo, oprimido como nos sentimos pelo poder israelense, compreender isso, mas os medos dos israelenses são reais, não exagerados ou inventados. As imagens de 7 de outubro estão gravadas em suas mentes. Especialmente desde o massacre, eles desejam o tipo de segurança que qualquer um de nós desejaria, e jamais negociarão a segurança de suas famílias. Eles não são um povo suicida.”
Este é o DNA, um desejo tanto por segurança quanto por autodeterminação. Ao reconhecer e atender a esses dois desejos — em vez de distinguir o certo do errado ou reviver a história — pessoas de boa vontade podem resolver o conflito. . . . Prevemos um cessar-fogo em Gaza e o retorno dos reféns mantidos pelo Hamas desde 7 de outubro, e elaboramos os detalhes de uma solução de dois Estados, propondo um plano para definir as fronteiras, determinar o status de Jerusalém e reconstruir Gaza.
“Como salvar uma solução de dois Estados” – The Atlantic https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2024/12/israel-palestine-…
Por fim, ele considera que cabe aos palestinos — como o lado mais fraco que precisa de ajuda com mais urgência — “dar o primeiro passo… para garantir que a Autoridade Palestina criminalize adequadamente a violência cometida pelos palestinos — assim como Israel deve acabar com a violência dos colonos na Cisjordânia e respeitar que as vidas dos palestinos são tão sagradas quanto as vidas dos israelenses. Ambos os lados neste conflito precisam controlar suas tendências violentas.” E, eis sua declaração hoje:
Hoje marca um momento decisivo na história de Gaza. O novo governo tecnocrático da Faixa de Gaza recebeu oficialmente suas cartas de nomeação, assinadas pelo Conselho da Paz, com um anúncio público esperado para as próximas horas.
Este não é um gesto simbólico, mas o início de uma nova fase de governança em Gaza — uma fase definida por profissionalismo, responsabilidade e reconstrução, e não pelo domínio faccional. O que torna este momento histórico não é apenas o que aconteceu, mas também quem este governo representa — e quem ele não representa. Este governo é composto por profissionais independentes de Gaza, que não são afiliados nem à Autoridade Palestina nem ao Hamas. São figuras profundamente enraizadas na sociedade, na economia e nas instituições de Gaza — muitos dos quais vivenciaram a guerra em toda a sua brutalidade, carregaram suas consequências e continuaram a servir sua comunidade mesmo nos meses mais difíceis. Liderança e figuras-chave:
🔸 Dr. Ali Shaath – Chefe do Comitê Administrativo (ex-vice-ministro dos Transportes da Autoridade Palestina)
🔸 Sr. Aad Abu Ramadan – Responsável pela pasta do Comércio e Economia (Diretor da Câmara de Comércio)
🔸 Eng. Omar Shammali – Responsável pela pasta das Comunicações (Diretor da Companhia Palestina de Telecomunicações em Gaza)
🔸 Sr. Abdel Karim Assour – Responsável pela pasta da Agricultura (Diretor da Organização de Assistência Agrícola)
🔸 Dr. Aad Yaghi – Responsável pela pasta da Saúde (Diretor da Associação de Assistência Médica)
🔸 Dr. Jaber Al-Daour – Responsável pela pasta da Educação (Presidente da Universidade da Palestina)
🔸 Eng. Bashir Al-Reis – Responsável pela pasta das Finanças (Consultor de engenharia e finanças)
🔸 Eng. Ali Barhoum – Responsável pela pasta da Água e das Autoridades Locais (Consultor da Prefeitura de Rafah)
🔸 Sra. Hanaa Tarzi – Responsável pela pasta do Bem-Estar Social e Assuntos das Mulheres (Advogada)
🔸 Dr. Arabi Abu Shaaban – Responsável pela pasta da Autoridade de Terras
🔸 Sr. Mohammad Basiso – Responsável pela pasta do Sistema Judiciário
🔸 General Mohammad Tawfiq Khalas e Sr. Mohammad Nasman – Responsáveis pela pasta da Polícia e da Segurança
Juntas, essas figuras representam uma nova abordagem de governança: civil, profissional, enraizada localmente e orientada para o futuro.
O que isso significa para Gaza?
Este desenvolvimento não é apenas uma troca de nomes, mas uma profunda mudança estrutural. Gaza entra em uma nova fase que prioriza:
- Reconstrução em vez de militarização
- Instituições em vez de facções
- Prestação de serviços em vez de slogans
- Revitalização da economia em vez de dependência permanente de ajuda
- Dignidade, responsabilidade e vida normal em vez de um estado contínuo de emergência
Espera-se que o governo tecnocrático se concentre na reconstrução de infraestruturas essenciais, no restabelecimento dos serviços públicos, na estabilização da economia, na coordenação de esforços humanitários e de desenvolvimento, e na preparação de Gaza para reformas de governança de longo prazo e para uma futura integração regional.
Para além de Gaza
Este momento não é importante apenas para os habitantes de Gaza, nem apenas para os palestinos.
Uma Gaza estável e funcional, administrada por profissionais e não por grupos armados, constitui um pilar fundamental para a estabilidade regional, para a redução da escalada israelense-palestina e para um envolvimento internacional sério e credível. Também abre caminho para vincular os fundos de reconstrução à transparência e ao desempenho, e para reintegrar Gaza em estruturas econômicas regionais — em vez de deixá-la isolada e frágil.
Este não é o fim do sofrimento de Gaza, mas talvez seja o início de seu processo de recuperação. Pela primeira vez em muitos anos, Gaza recebe uma oportunidade real que lhe foi negada por muito tempo:
Ser governada por seu próprio povo, para seu próprio povo, com os olhos voltados para o futuro.
Na esperança que também em Israel haja uma troca de governo, que acredite em um futuro no qual ambos os povos possam ser livres e viver em segurança e paz. Amém!!!