À Jacqueline Du Pré, inspiração acima de datas e rituais.

A avó portuguesa do amigo tijucano gostava de mim. Quando os sinos do Natal começavam a bimbalhar no horizonte, convidava-me para a ceia, mesmo sabendo que nossas tradições eram diferentes. Um espanto! Frutas secas, rabanadas, peru saindo do forno (que aroma!), panetones, banquete para um Menino habituado à frugalidade radical. Ali tomei, pela primeira vez, um vinho verde, que achei estranho e, zás-trás, me nocauteou. O clima era amável, ninguém contava histórias que podiam constranger, nada de tiozão do pavê ou sectarismos. Adolescente, aprendi o valor da comunhão pela amizade, do respeito às diferenças e da conversa com leveza.

Cercado pelos primeiros sinais natalinos, Papai Noel tomando Coca-Cola nos reclames e Jingle Bells na veia e sem molho tropical, resolvi hoje sair em busca do espírito de Natal. Teria ele abraçado Mimi e fugido pra Xangai? Ou teria saído por aí, levando violão debaixo do braço e procurando chaminés inexistentes? O que, afinal de contas, é esse espírito? Dizem as boas e más línguas que é o guardião da fraternidade, da união, da empatia, da solidariedade e outros valores menos votados. Cadê ele?

Peguei o metrô e fui à luta. No vagão lotado, observei um rapaz cabisbaixo. Depois de duas estações, começou a soluçar. Um choro silencioso, sentido. Não eram lágrimas de esguicho, mas dava para ver que havia ali muito sofrimento. Que tipo de lembrança o invadira? Olhei em volta, outras pessoas também perceberam o que estava acontecendo. Ocupadas com celulares e embalagens para presente, não moveram uma palha. Quando, vencendo uma crônica timidez, pensei em oferecer-lhe conversa, o trem parou e ele saltou, levando consigo uma dor que não sei dimensionar. O espírito de Natal devia estar distraído,/ assobiando uma canção./Passou batido/por aquele vagão.

Já na rua, quase aos solavancos, tento desviar-me da multidão apressada. Consumir é preciso, viver … nem sempre. O Fradinho magro, eterno ingênuo, sussurra: Quem sabe o espírito de Natal divide-se, generosamente, dentro das caixas embaladas com papel colorido, esperando apenas o momento de fazer uma entrada triunfal? Como dizem que ele é silencioso e invisível, jamais o saberemos.

Dentro de uma lotérica, uma fila aguarda atendimento. É a ilusão de mudar a vida com sorteios e mandingas. Ao lado da fila, uma imagem perturbadora. Prostrado no chão, um homem quase nu estende a mão pedindo misericórdia. Está tão fraco que mal consegue levantar a cabeça. Encolhido, à beira do nada, recebe apenas a indiferença. É um horror que me faz lembrar uma foto dos anos 90, tirada no Sudão. Uma criança subnutrida jaz na terra árida, sem forças para andar. Perto, um abutre observa, paciente, antecipando a refeição potencial. A figura rastejante que vi na lotérica, acredite, ilustre passageiro, era um homem. Os abutres, ora os abutres, somos todos nós. O espírito de Natal, sem dar o ar da graça, tem filtros muito seletivos, cuja lógica será sempre inacessível.

Um tanto desapontado com a primeira amostragem, abro o jornal. Leio que o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, ordenou que o padre Julio Lancellotti deixe de transmitir suas missas pela internet e suspenda as atividades nas redes sociais. O padre Julio, que tem 2,3 milhões de seguidores no Instagram, é conhecido por seu trabalho a favor da inclusão de minorias e de ajuda a moradores de rua. O que diria o espírito de Natal desta censura, do arbítrio antipopular, em nome do originador da data natalícia? Que conforto ofereceu a Leonardo Boff quando foi condenado ao silêncio obsequioso por um papa ultrarreacionário?

Volto à senhora portuguesa e sua família que me acolheram num Natal distante, apresentando-me um ambiente calmo, sem cobranças e, sem discursos ou proselitismo, mostraram-me uma celebração memorável. Quem sabe o espírito de Natal, em seu mistério imaterial, não passe de uma memória suave que diminui a carga do viver? Um pouco de poesia não machuca.

Abraço. E coragem.