Futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais do que isso (Bill Shankly, ex-gerente de futebol do Liverpool)

Ô Jacques, tanto assunto perturbador pra você comentar e escolhe logo futebol ? Depois de um breve diálogo com um querido amigo, no qual expusemos algumas divergências fraternas, resolvi arriscar uns palpites sobre esse que é o esporte que (ainda) mobiliza multidões no Brasil. Longe de ser apenas pretexto trivial para conversa de boteco, estou falando de um dos poucos fatores que simbolizam uma identidade nacional. Difícil tratá-lo em tão pequeno espaço, mas não vou fugir da bola dividida.

Meu amigo, que frequenta arquibancada rival no Maracanã, referiu-se ao Flamengo como “antro bolsonarista”. Pensou, certamente, no Rodolfo Landim, presidente do clube de 2019 a 2024. Landim alinhou-se, publicamente, a Bolsonaro, mas perdeu a eleição do ano passado para Luiz Eduardo Baptista, o Bap, que interrompeu o escandaloso adesismo direitista. É apenas, como tantos outros dirigentes de clubes, um burocrata inexpressivo. O “antro” deixou formalmente de existir, como aconteceu no passado em tantos outros clubes dirigidos por criminosos e simpatizantes da ditadura civil-militar. Há aqui, no entanto, uma questão de fundo mais relevante: a relação de futebol com política. Mais amplamente, de esporte com política.

 O futebol é um reflexo da sociedade e nela a política é o oxigênio que se respira, a artéria por onde circulam relações pessoais e sociais. Não há compartimento social que independa de ações políticas lato sensu. Permanecendo no futebol (o espaço é curto). Nas Copas do Mundo de 1934 e 1938, as seleções italiana e alemã fizeram, perfiladas, a saudação nazifascista, subordinando a esfera de couro a regimes de extrema-direita. Em 1950, Getúlio Vargas e Mendes de Moraes usaram a Copa como propaganda para projeção internacional do país no pós-guerra. Em 1958 (Juscelino), 1962 (Jango) e 1970 (Médici), os campeões mundiais foram, pós-título, ao beija-mão de autoridades que tiraram uma casquinha da euforia popular. Em 1978, a ditadura argentina usou a Copa para alardear uma imagem “limpa” do regime, um dos mais sangrentos do período.

Sempre foi difícil separar a paixão pelo esporte das circunstâncias políticas stricto sensu. Dois exemplos fortes. Há relatos de que presos políticos em 1970, num dos períodos mais duros da ditadura brasileira, discutiram se deviam torcer pela seleção canarinho. Se ela ganhasse, ponderavam, a ditadura usaria o triunfo como arma de propaganda do Brasil Grande. Depois das primeiras vitórias, com atuações espetaculares de Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho & companhia, renderam-se à maravilha do jogo bem jogado. Coisa parecida aconteceu no Uruguai, em 1980, com a disputa do chamado Mundialito. Sob uma ditadura que teve o maior número de presos políticos per capita, os prisioneiros viveram dilema semelhante ao dos companheiros brasileiros: torceriam pela Celeste ? No final, acabaram vibrando com o título vencido pelos uruguaios. Paixão não se anula nem sob tortura.

Antes de continuar, um registro importante. O Flamengo tem boa tradição democrática. Não à toa, aliás, tem a maior torcida do país (cerca de 48 milhões de torcedores, segundo a última pesquisa), atravessando todos os extratos sociais e regiões do país. Os que se referem a ele como “clube do Leblon” têm os cotovelos doloridos e laboram contra os fatos. Estão no vasto currículo da torcida dois movimentos importantes. O Fla-Diretas, que ajudou pioneiramente a mobilizar a galera para a campanha das Diretas-Já, e o Flamengo Antifascista, autoexplicativo.

Finalmente, meu amigo falou que o time do Flamengo é um bando de alienados. Tem razão, mas por que falou apenas do rubro-negro da Gávea ? Todos os times, sem exceção, são exatamente assim. Nada diferente da sociedade brasileira, tristemente despolitizada. O futebol tem sido, historicamente, uma ponte para a ascensão social das classes oprimidas. O modelo deste alpinismo é a ostentação dos poucos que ascendem na profissão. O processo reproduz-se por gravidade. É o oprimido vestindo a máscara do opressor, sem qualquer intenção de desafiar a máquina de exploração do pé-de-obra.

Mencionou ainda meu compadre que durante a Democracia Corinthiana, início dos anos 80, houve uma espécie de revolta contra o reacionarismo da direção do clube. Seria referência das possibilidades de superar o imobilismo. Infelizmente, o exemplo de pouco vale. Em primeiro lugar, não houve uma revolta contra a direção do clube. As lideranças do movimento, Sócrates, Casagrande e Vladimir, contaram com o apoio do diretor e vice-presidente de futebol, Adílson Monteiro Alves, um sociólogo progressista. Em segundo, o movimento viveu em simbiose irrepetível com um momento muito particular da história brasileira. A ditadura vivia seus últimos anos, a reação institucional e popular crescia, mobilizações multiplicavam-se. Com a derrota da emenda Dante de Oliveira, em 1984, a Democracia Corinthiana refluiu, não deixando rastro no ambiente do futebol. Sócrates foi jogar na Itália. Casagrande migrou para o São Paulo.

Bem, muito ainda haveria a comentar, mas o texto já está grande. Quem sabe voltamos para um segundo tempo ? Uma última observação. Jamais fui aos estádios condicionado pela composição da diretoria do meu time. Acho que nenhum torcedor faz isso. Como bem disse o João Saldanha, o jogador pode ser profissional, mas a torcida, e não fujo à regra, é amadora.

Abraço. E coragem.