
Muitos medos nascem do cansaço e da solidão. Os deles surgiram de nossa falha em resolver isso quando chegou a nossa vez de conduzir esta terra. Por incompetência, covardia ou egoísmo, fracassamos em construir um país melhor para a próxima geração. A dor é deles; a culpa é nossa.
Quando éramos jovens e sangrávamos pela mesma guerra, prometemos que a geração seguinte não seria devorada pela mesma máquina. Juramos um país seguro e dissemos que bastava resistir. Sabíamos que estávamos mentindo. Mentir pareceu menos doloroso que admitir a verdade.
Nossa recusa em ceder qualquer coisa está no centro deste conflito desde que nos tornamos fortes. A tragédia verdadeira é que muitos acreditam que ceder é ser derrotado. E se somos fortes, por que aceitar derrotas? É por isso que o fascismo, o extremismo e a violência cresceram tanto aqui.
O descompasso começou antes. Entre o que sonhamos ser como nação jovem e aquilo em que nos tornamos ao ganhar poder, abriu-se um abismo. Como escreveu Maquiavel em O Príncipe, líderes precisam usar força e até crueldade para manter o poder, mas devem cuidar do bem-estar do povo para evitar a rebelião. Aprendemos essa lição da pior forma. A violência, que deveria ser consequência, virou causa. Transformamos medo em muros. Na solidão construída para evitar soluções, passamos a ver o outro como ameaça.
Então, quando nossos filhos perguntaram que mundo lhes deixaríamos, respondemos com o único que conhecíamos: uma guerra eterna, nunca resolvida. Sabíamos que viria outro confronto. Ainda assim, escolhemos sacrificá-los.
Fechamos todas as portas porque abrir exige energia que já não temos — pelo menos por enquanto. Cercamos fronteiras porque proteger parece mais simples do que devolver o que não nos pertence mais. Erguemos muros porque negar a existência do outro nos ensinou que isolamento soa como segurança. Tomamos uma terra que um dia foi nossa, mas já não é. Lá vivem três milhões de pessoas que não pertencem à nossa tribo. E, ainda assim, seguimos mandando nossos meninos e meninas morrerem por uma posse pertencente ao passado.
Não os preparamos para nada. Nem para a paz, porque nunca a buscamos de verdade. Nem para a guerra, porque admiti-la seria reconhecer o fracasso. Lançamos nossos filhos ao fogo.
Agora é a vez deles viverem o terror que suportamos pela incompetência dos que vieram antes. E é a vez deles morrerem por dentro. Em cada silêncio, em cada madrugada em que acordam sozinhos, descobrem que herdaram não só a guerra, mas o cansaço, a solidão, o descompasso e o fracasso.
A depressão deles não é fraqueza. É a consciência de que nasceram para pagar o preço da nossa recusa em mudar.
Você e eu éramos os adultos na sala. Deveríamos tê-los conduzido a uma nova era, mas como a geração anterior, elegemos o medo para governar porque estávamos cansados demais para eleger a esperança. Poderíamos ter percebido que o outro sangra como nós, chora como nós, deseja paz como nós. A mesquinhez nos ensinou que confiar é fraqueza. O cansaço nos convenceu de que mudar custava mais do que repetir o erro.
Então repetimos. Chamamos de destino o que era apenas covardia.
O desperdício de uma geração não acontece de repente. Cresce no acúmulo de dias em que escolhemos o horror familiar porque mudar exige energia que dizemos não ter — mesmo sabendo exatamente o que estamos fazendo e fazendo assim mesmo.
Se tínhamos um dever, era romper o ciclo. Falhamos. Alargamos o abismo. O que fizemos não foi acidente: foi decisão consciente, repetida dia após dia, de preservar o mundo que conhecemos e pagar com a vida deles.
Agora caminhamos pelas ruas e vemos o resultado: uma nova geração carregando o cansaço, a raiva e a solidão. Eles nos olham e veem o descompasso encarnado — adultos que prometeram paz e entregaram guerra, que falaram de futuro e ergueram repetição.
Essa é a verdade que precisamos ter coragem de encarar.
Responsabilidade não é apenas admitir o que fizemos. É reconhecer que desperdiçamos mais uma geração sabendo exatamente que a estávamos desperdiçando.
E agora, diante dessa geração quebrada, a pergunta não é por que eles estão destruídos — nós sabemos por quê. A pergunta é mais dura e mais urgente:
Estamos fazendo algo diferente pela próxima geração?
Ou arrogância, incompetência e egoísmo já preparam o próximo desperdício? Já estamos olhando para os meninos e meninas que ainda são luz e decidindo, outra vez, que é mais fácil sacrificá-los do que mudar?