27/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Tenho orgulho de (e por) ser Judeu

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ph.: by Jaci Fátima Siqueira

Eu tenho orgulho de ser (e por ser) Judeu – não posso sequer esconder isso…

Mas, eu teria igual orgulho se fosse Islâmico, Católico, Protestante, Budista, Hinduísta, Umbandista, Candomblecista, Kardecista ou de outro grupo cultural… e tenho, realmente tenho, orgulho dos meus amigos que são Islâmicos, Católicos, Protestantes, Budistas, Hinduístas, Umbandistas, Candomblecistas, Kardecistas, de outros grupos culturais e dos Ateus: há uma dignidade plural e beleza humana nisso tudo!

Também tenho orgulho de ser (e por ser) Professor – não escondo – nem quero esconder!

Mas, teria igual orgulho, fosse pedreiro, carpinteiro, motorista de ônibus, motorista de caminhão, taxista, agricultor, jardineiro, entregador de pizza, vendedor de pastel… porque eu tenho amigos, amigos queridos, que são pedreiros, carpinteiros, motoristas de ônibus, motoristas de caminhão, taxistas, agricultores, jardineiros, entregadores de pizza, vendedores de pastel…

Assim, sendo isso ou aquilo, terei orgulho por ter vivido como pessoa, como ser humano e como gente… isso me orgulha, sim senhor, isso me orgulha hoje – e me orgulhará amanhã!

Eu tenho orgulho de ser Judeu…

E tenho honra plena por ser Judeu, e Judeu de Esquerda. E tenho imenso orgulho, honra e felicidade em saber que há uma multidão de Judeus de Esquerda, pois assim, exatamente assim, o Judaísmo dos grandes Profetas, de Gustav Landauer, de Martin Buber, entre outros, segue, sempre antifascista, antinazista, antirracista, antimilitarista, antiautoritáro, militante dos direitos humanos e fundamentais, e sempre dialógico, pluralista, proativo, humanista e libertário!

Foi esta Esquerda, esclarecida, libertária e humanista, que criou os Kibutzim judaicos desde 1870, e as bases sólidas (leia-se: humanistas e socialistas!) do que é o Estado de Israel. Foi ela que legou ao mundo judaico a esperança, e que deu aos Judeus e Judias o seu centro espiritual, cultural e social em Eretz Israel. Foi ela quem tomou enxadas, foices, garfos, e as próprias mãos, para transformar o deserto em Jardim. Este é o legado da Esquerda judaica.

Tenho orgulho disso! Mas, meu orgulho não é bobo nem inocente, muito menos alienado. Ainda defendo, como tantos Judeus de bom senso e critério jurídico internacional (não necessariamente de Esquerda) a criação, coexistência, convivência e intercâmbio econômico entre Israel e Palestina. Sim, desde o início: dois Povos, dois Estados: Israel e Palestina!

Eu sou Judeu, tenho orgulho de ser Judeu, honra-me ser Judeu. Ser Judeu é, sobretudo, ser Pessoa que enxerga o mundo. E o mundo que enxergo, o mundo que desejo, o mundo que meu Judaísmo imagina é o mundo de todos e todas, para Judeus e não Judeus.

Por ser Judeu, fui sentar-me à mesa de um Muçulmano e almoçar com ele, momento em que, muito fraternalmente, deu-me a honra de proferir a Brachá HaMotzi (Bênção judaica do Pão: Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mélech haolam, hamôtsi lêchem min haárets) no seu espaço e mesa islâmicos, e, ao final, pude abraçá-lo e apertar-lhe a mão.

Por ser Judeu, tenho alunas Muçulmanas, com quem posso, muito alegremente, sentar-me à mesa de uma Cantina universitária, e beber um café, ou orientar em Pesquisas bibliográficas.

Mas, eles, por serem Muçulmanos, conseguem fazer isso comigo, um Judeu, porque eles são tão gente quanto sou. Temos questões urgentes a resolver ou tratar, mas precisamos disso: estar juntos, porque juntos chegaremos a um lugar e condição humanos e solidários!

Na ética do meu mundo cabem todos e todas!

E, por que razão luto? Luto para que ninguém impeça quaisquer outros seres humanos, com suas culturas, de viverem suas vidas, de se alegrarem com suas culturas, de terem orgulho do que são e, sobretudo, de lutarem por seus direitos.

Registre-se, eu não teria orgulho, qualquer orgulho, se eu fosse canalha, preconceituoso, racista, islamofóbico, homofóbico, machista, explorador, agiota, antissemita, maledicente, prepotente, genocida, nazista, fascista, stalinista, militarista, autoritário… ou apoiador dos tais, ou simplesmente  se eu fosse indiferente diante dos tais e de seus atos de perversidade. No meu mundo, não cabem perversidade, apoio à perversidade ou indiferença!

Enfim, tenho orgulho de ser Judeu de Esquerda, embora saiba que os antissemitas e direitistas pouco ou nada compreendem do Judaísmo de Esquerda! Os que nada compreendem se alimentam de rancores, ódios profundos, discursos destrutivos, redes sociais da violência e outros esgotos…

© Pietro Nardella-Dellova

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