27/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

¿Es o se hace? Não há inocência a ser comprovada.

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“Don’t talk unless you can improve the silence.”
― Jorge Luis Borges

 

¿Es o se hace? é uma frase idiomática, um ditado em forma de pergunta do idioma espanhol, com um conteúdo idiomático (não linear) e uma carga semântica muito interessantes. Para melhor entender seu sentido, precisamos primeiramente abordar uma expressão ou uso idiomático que dela faz parte: hacerse el/la/los/las... Este uso é o equivalente espanhol à expressão “fazer-se de…”; ao alguém se fazer de (qualidade), a pessoa finge que é ou tenta aparecer como. Por exemplo, “fazer-se de Inês” significa fazer de conta que se desconhece uma situação, geralmente embaraçosa, ou dar a entender que nada se tem a ver com um problema. Mais usualmente, e com maior abrangência, figura a expressão “fazer-se de besta”, a qual, além de fingir não ter a ver, também pode significar tentar aparecer como ignorante, desentendido ou simplesmente burro.

Em espanhol, hacerse el burro / hacerse el desentendido / hacerse el idiota são algumas das versões desta expressão. Por extensão e com a acima mencionada carga semântica adicional, uma de ironia, temos ¿Es o se hace? Esta é uma pergunta retórica, ou seja, que não espera nem pede resposta; é mais uma afirmação crítica diante de uma atitude ou comportamento claramente desconcertante e muitas vezes indignante e/ou reprovável.

Já no início da pandemia da COVID-19, um dia nada de belo eu falava com minha mãe, como eu costumo fazer pelo menos duas vezes por semana. É sempre mais ou menos a mesma coreografia: eu ligo para ela usando o Skype ou ela, geralmente impaciente ou com saudades, faz a ligação internacional na linha fixa. Quando ela está solitária, me liga mais vezes, mesmo que seja para dar um oi e me contar coisas que eu quase invariavelmente já estou sabendo. Ela não utiliza Internet (existem pessoas assim), pelo qual depende da TV para informar-se; isto largamente discutido em diversas ocasiões, dadas minhas muitas ressalvas, porém entendendo que ela simplesmente ficou para atrás na era da informação digital e virtual.

Naquela ocasião falávamos sobre a pandemia, como ela já estava declarada mundialmente e como, com poucos dias de diferença, nossos países latino-americanos estavam entrando com protocolos, restrições e tal. Minha mãe, que não é nada perto de uma resistente de esquerda, mas é sim gente e entende o básico de que ciência é ciência e política abestalha e avilta, comentava que achava evidentemente pertinentes e necessárias as medidas restritivas e de saúde pública adotadas pelo governo argentino. Aqui se faz necessário também aclarar que ela “não gosta” do governo Fernández, maiormente, sei eu, porque a ex presidente é atual vice e porque ela, ele e o pacote de modo geral, são mostrados negativamente pela mídia. Mesmo assim, ela aplaudia as medidas e a rápida resposta, de modo geral.

Interessante como a Grande Mídia, ou grande mérdia, como eu costumo chamar, sói funcionar como se ela tivesse um sistema de switch paramétrico automático que alterna entre as correntes apoio-mas-tento-dissimular, critico-e-finjo-ser-pelo-país e soy-gorila-pero-no-mucho, a depender do governo em questão. No caso de um governo de centro-esquerda, por mais moderado que este seja, como em se tratando do atual governo argentino, o Modo Cipaio fica ON e o recrutamento não cessa.

Comparávamos, eu e minha mãe, a situação na Argentina e no Brasil, como a população parecia estar reagindo e quais as perspectivas aparentes a partir das medidas adotadas. Aí eu tive de me armar de paciência, pois já em abril de 2020 não era fácil de explicar, para tentar desenhar para ela o que estava acontecendo em solo brasileiro. Estou falando 04/2020, bem no comecinho das barbaridades pandêmicas; fichinha se comparado com o que aconteceu em maio, junho, julho ou mês qualquer depois disto. Daí para frente seria, e tem sido, uma tarefa hercúlea tentar manter minha família e amigos no exterior a par da Inacreditável Terra de Banárnia.

Em um determinado momento minha mãe parou, ficou quieta por um instante; creio eu que fosse após eu falar que o Pestilente da nação tinha declarado que ele achava que a COVID-19 não mataria mais que a gripe H1N1. Ela calou e voltou do silêncio meditativo com um “Pero ese tipo ¿es o se hace?” Curto e grosso. Em vão aclarar, tentar explicar o inexplicável: como é que uma pessoa que não é médico nem sabe qualquer coisa de ciência pode soltar tamanha irresponsabilidade para o público geral; por que um presidente faria algo assim (à época, eu não estava convencido do fato disto ser, de modo geral, um esquema de genocídio bem seletivo); por que ninguém assessora a besta… Todas perguntas relevantes, urgentes, e sem resposta, ao menos para uma pessoa como minha mãe, que não consegue acreditar na dimensão do mal.

Vejam bem: tem limites muito difíceis de ultrapassar para uma pessoa que não está animalizada ou é psicopata. Um deles é a compreensão da vontade de morte de outrem. Ela já perdeu os pais, aliás, bastante nova, alguns amigos e até o marido, meu pai; sempre foi por motivos de saúde, mais ou menos previsíveis, entendíveis, trágicos. Nunca teve ninguém arrancado deste mundo nem assassinado. O mais próximo a ser desgarrada sem ser por doença, colijo eu, deve ter sido quando eu vim morar no estrangeiro, e este é motivo de quantiosa culpa que eu trabalho com presença telefônica, e, até a pandemia, com visitas tão frequentes como minha rotina e orçamento permitiam.

“É ou se faz de besta?” “É ou se faz de burra?” “É ou se faz de imbecil?” São perguntas que eu não deixo de me fazer. Outrora, naqueles velhos tempos de análise ideológica retórica, os sujeitos em questão eram tão simplesmente cidadãos e alguns legisladores. Que bem vivíamos e não sabíamos!

Somos orangotangos com porte de voto?

Justin Gregg, da BBC Earth, publicou um artigo em 2014 que tem como indagação principal quão mais inteligentes nós humanos somos que, por exemplo, um chimpanzé. Ele relata:

“O procedimento para humanos dura alguns anos, mas na natureza há exemplos de técnicas complexas que são aprendidas em poucos minutos. O filhote de gnu-azul da África, por exemplo, aprende a ficar de pé e correr mais rápido que seus predatores em apenas poucas horas depois de nascer. Nesse aspecto, como em vários outros, os humanos são parecidos com os chimpanzés. O filhote precisa de anos de infância e contato com os pais para observar, imitar e aprender. (…) Uma experiência feita nos anos 1960 tentou elucidar esta questão. (…) A experiência feita pelos Gardeners deixou claro que apenas o convívio social não é suficiente para desenvolver a mente de chimpanzés ao mesmo ponto dos humanos.”

Aparentemente, nós somos capazes de muito mais; não apenas por estarmos equipados com hardware adequado para a linguagem de modo geral, o que já muda a experiência de mundo de maneiras dificilmente dimensionáveis, mas também porque nossa capacidade de desenvolver e compreender conceitos, noções, abstração (em grande parte, se não quase inteiramente, graças à linguagem humana) nos permite idear, pensar, imaginar, planejar, agir e reagir de uma forma única entre as espécies.

Ademais, nossa capacidade de debater, discutir, contrapor ideias e tantas outras atividades, está simplesmente em outra dimensão. Assim, conseguimos fingir, mentir e enganar como só nós podemos. E liderar através da palavra.

Mas, o que há da força, a brutalidade, a coerção, o planejamento para a agressão? Isso nós temos em comum com os primatas, e várias outras espécies. Ah, sim: não nos é exclusivo o poder de subjugar, de intrigar, de criar animosidade.

Da primitividade da violência e a agressividade se ocupam diversos autores de diferentes disciplinas e ciências. Posso aqui deixar um spoiler: não é algo mais evoluído nem recente que a solidariedade, a mancomunação para o bem geral nem a afetividade. As sociedades humanas estão, e sempre estiveram, pautadas na supervivência a partir de relações de poder. A união sempre teve muito menos a ver com a supervivência comunitária que com a subserviência a favor das elites, sejam estas clânicas, tribais, nacionais. E a mesquinhez, aquela ruindade consciente, é atributo nosso e apenas nosso.

Então, fazendo uma parada por enquanto, eu vos deixo com uma indagação. Ignorância existe, assim como existem a burrice, o desconhecimento e o engano. Todavia, o quanto “nos fazemos”? Quanto nós distamos de um orangotango com direito a voto, ou quanto nossa primitiva mesquindade e dissimulação nos fazem agir de maneira precisa e convenientemente subserviente às mãos que balançam o berço?

 

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