27/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Das Relações do Amor Livre

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Over the Town 1918 Marc Chagall

É preciso avançar. Descobrir algo mais que a futilidade dos dias e a superficialidade destrutiva dos casamentos e outros institutos cartorários. Superando os obstáculos cotidianos, é possível entender que esta relação é ou deveria ser um encontro. Encontro de pessoas que constroem um diálogo: humanizam, humanizam-se e vivem.

O encontro estabelece de uma vez por todas a perfeição, em que emissor e receptor se confundem, plenificam-se, e se compreendem num processo único e intenso de mensagem/resposta, por códigos verbais/não verbais. Principalmente, não verbais, pois que outro código é necessário, quando naturalmente as pupilas dos olhos e os lábios dilatam-se numa demonstração convidativa? É como ouvir, vendo estas pupilas e estes lábios: “entre, ilumine e acomode-se na intimidade da minha casa”.

Por que portas se podem entrar?

Por todas as que a natureza deu às pessoas, pois elas se veem, elas se ouvem, elas se cheiram, elas se beijam e, finalmente, elas se tocam num toque suave e inconfundível. E não se despreze nenhuma destas portas sob pena de morte, porque cada uma – e todas elas, conduzem à intimidade, ao mais profundo, ao centro da pessoa amada, enfim, ao que ela é. Ninguém sabe quem ela é, senão quem ama, entra e ilumina. A isto o Judaísmo histórico chama bênção de D’us, plena de substância que é, a um só tempo, substancialmente bom, muito bom, e universalmente maravilhoso.

Não é sem motivo que o vinho seja a expressão desse encontro (ninguém em sã consciência bebe do vinho sozinho!). Vinho é bebida para dois que se encontram e dançam, transformando suas bocas e seus umbigos em cálices: pois é na boca e no umbigo que se derrama do vinho e dele se bebe.

O vinho que é o vermelho da sua cor, o perfume da sua essência, o sabor das suas uvas, o toque que enche a boca e o brinde dos corpos que se abençoam em libertação prazerosa e solidária. Quem for apressado, infeliz e ébrio, beba aguardente, conhaque, cerveja e outros venenos, mas, no umbigo e na boca dos que se amam é aconselhável o vinho e, na casa íntima, somente os que portam a luz da solidariedade, a saliva da unção e a poesia que plenifica e se torna em prazer: a chave!

As pessoas que se amam são como a mesa aparelhada e posta, na qual dedicam seus ouvidos (e seu íntimo) e oferecem suas mãos, para com elas, abençoarem o encontro, e somente com elas, partirem o pão sobre o corpo nu e, embebendo-o no vinho, depositarem alegria na boca do ser amado.

É um processo de vida, no qual cada raiz será recoberta com boa terra, e cada boa terra ungida com água fresca e, assim, a alegria indizível e inegociável, é ver flores se abrindo às borboletas e às abelhas, e o fruto tomando forma e cor, substância e paladar, oferecendo-se aos sentidos: às mãos, à boca, aos olhos, ao nariz e ao ouvido, ligados por alma, espírito e corpos: pelo amor. Em que cada poro não é desconhecido, nenhuma mudança de cor ou temperatura passa despercebida, e o pulsar do peito se converte em notas ao ouvido da música-poesia, e somente ela grita e ouve, e se pinta na partitura.

É a harmonia: a pessoa humana que se respeita e se reconhece gente apenas. A presença de uma e de outra é não menos que um acontecimento vivificador: e ao menor sinal de aproximação a menor parte do corpo estremece e se robustece: agiganta-se, e a alma se abre como um manto, que se faz céu, e se faz universo sem medida e sem fim. E nada perturba, nada incomoda, nada se interpõe, nada falta. Tudo é belo: tudo é estado de delícia libertária!

É, então, o amor de entrega, a comunhão, a ternura, a leveza da alma e do corpo, o convite, o pão e o vinho, o caso, a leitura de Vinícius e do Shir HaShirim, o beijo íntimo e demorado, a lua e pilhas de estrelas que se veem calmamente, o verde da serra, a brisa do mar azul, a audição de J. S. Bach, o caffè, o respirar, o peito umedecido e a alegria das águas que saltam de fontes.

E se não for assim, exatamente assim, é, então, a violência tolerada, a conveniência, a tortura, a morte da alma e do corpo, o descaso teológico, a novela e a fila sebosa e interminável para o litoral, a areia nos cabelos, a discussão de contas, o shopping center e o peso dos rios que se arrastam.

© Pietro Nardella Dellova, 2002

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