27/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Bolsonaro não foi a exceção, foi a regra

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Vamos falar sério. O brasileiro sempre votou mal, Bolsonaro não foi nenhuma surpresa, foi o resultado de anos de eleições onde políticos salafrários foram eleitos e reeleitos. Somos o país onde sequer torturadores conhecidos do regime militar foram julgados. Jeitinho é um eufemismo comportamental e político do brasileiro.

Não precisamos voltar muito no tempo. A Lei da Anistia é uma de nossas maiores vergonhas escancarando nossa resiliência, o fim da ditadura sem culpados pela tortura, morte e desaparecimento de opositores e dos que lutaram por nossa liberdade. Nenhum outro país da nossa sofrida América Latina fez isso.

As eleições brasileiras estão recheadas de exemplos de como o brasileiro vota. Pense no Rio de Janeiro, Sergio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Antony Garotinho, Rosinha Garotinho, Moreira Franco e mais recentemente Wilson Witzel, todos ex-governadores envolvidos em falcatruas, alguns já julgados e cumprindo pena.

Paulo Maluf foi deputado federal por São Paulo por quatro mandatos, governador e prefeito em duas oportunidades, e candidato a presidência via Colégio Eleitoral. Acabou condenado em 2017 pelo STF por lavagem de dinheiro enquanto prefeito. Conhecido pelo jargão “roubo mas faço”. Um exemplo clássico do político que se locupletou por anos as custas do erário.

O fato é que de norte a sul não faltam exemplos de políticos eleitos legitimamente dentro do processo democrático, reconhecidamente temerários na lide com o bem público. Todos enriqueceram durante seus mandatos e foram reeleitos mesmo diante das acusações de desvio de dinheiro.

A verdade é que somos um povo que vota sem olhar a quem. Talvez seja o resultado do voto obrigatório, talvez seja a falta de conhecimento da implicação do voto, quem sabe seja a descrença no sistema democrático, na política e nos políticos. Ou tudo isto junto e muito mais. Bolsonaro não foi a exceção, foi a regra.

Quando chegamos ao ponto em que os negros votaram no racista, as mulheres no misógino, os LGBTs no homofóbico e todos os demais no miliciano, escancarou-se a realidade de quem é de fato o povo brasileiro. Aquela imagem de hospitalidade, samba, futebol e carnaval evaporou-se. Caiu a máscara e a verdade de quem somos surgiu cristalina.

Agora temos os arrependidos. Os que se arrependeram do voto, aqueles que se arrependeram de não ter votado, os que se deram conta da bobagem da abstenção ou voto nulo. Todos eles pensam que sua culpa pode ser expiada na próxima eleição. E para que seja possível vencer o fascismo, temos de aceitar toda ajuda possível.

O Brasil teve seu momento com Lula. Na nossa jovem democracia, de longe o melhor presidente que já conhecemos. Seus feitos são muitos, mas ter retirado mais de 40 milhões da pobreza e incluí-los na classe média foi sua maior realização e sua maior tragédia. A Casa Grande nunca vai perdoá-lo por ter sido obrigada a sentar com ex-pobres em restaurantes e aviões. Ter seus filhos na mesma universidade que os filhos da empregada e do zelador foi demais para eles.

Chegamos onde estamos por menosprezar a força do inimigo. Por acreditar que todos são patriotas e pensam no bem geral da nação. Todos aqueles políticos que enriqueceram, tiveram o apoio desta gente. Cresceram com eles e se aproveitaram de suas benesses, pagaram felizes a comissão exigida. Corruptos e corruptores sempre conviveram bem.

Se foram capazes de prender, julgar e condenar um ex-presidente montando uma farsa de proporções colossais, envolvendo um juiz e promotores de uma força tarefa, com a função de combater a corrupção, imaginem do que mais são capazes. Se estas pessoas não responderem por seus atos, se não forem julgadas por seus crimes, vamos estar reescrevendo a Lei da Anistia e demonstrando nossa incapacidade de punir os responsáveis pelos crimes de lesa pátria.

Com tudo o que está acontecendo. Mesmo com a corrupção na compra de vacinas que poderiam ter salvo milhares de vidas, na inépcia de governar o Brasil e combater a pandemia, ainda assim não se consegue uma maioria para um Impeachment. Seguimos reféns de uma camarilha chamada de “centrão”. Um bando de políticos que servem a si mesmos e cujo único objetivo é usar as verbas públicas em benefício próprio, todos eleitos democraticamente.

Temos um longo caminho a ser perseguido. Se todas estas lições não forem aprendidas, o país jamais vai sair deste ciclo de subserviência aos interesses de uma classe dominante que explora o povo e o mantém subjugado aos seus interesses.

 

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