O « pas-de-deux » do capitão e Lula

As estratégias eleitorais para a presidencial 2022 se precisam, partido e candidaturas potenciais se posicionam. Por enquanto, a mais clara é a do ocupante do Palácio, que está em campanha desde o primeiro dia de seu mandato, usa e abusa da máquina do Estado e ultimamente vem desafiando a pandemia ao acelerar à frente de seus fanáticos seguidores motoqueiros. Como é sabido de longa data, ele não admite perder, o que só lhe deixa uma opção: vencer custe o que custar. Ou, em bom português, vencer pelo voto ou tentar o golpe. Que não haja dúvidas quanto à determinação do capitão, que a um ano e meio da eleição avança suas peças no tabuleiro e busca encurralar o adversário com vistas ao xeque-mate , usando e abusando de golpes baixos. Se ele vai ter força e cacife para conseguir são outros quinhentos. Mas que vai tentar, isso vai. 
Com 25 a 30% de apoiadores cegos e surdos Jair Messias é um candidato fortíssimo à sua própria sucessão. Tem todas as chances, senão a quase certeza, de estar no segundo turno e então novamente jogar a carta do antipetismo que, a despeito da massa de decepcionados, sobrevive. Apesar das provas de descaso no combate à pandemia colhidas na CPI da Covid  e de sua responsabilidade direta na morte de cem mil brasileiros, o impeachment não avançou, nem avançará enquanto Augusto Aras for o Procurador Geral da República. O relatório da CPI do Senado, com um eventual pedido de indiciamento do presidente, dependerá de seu crivo para seguir adiante. O que ele não dará. Nunca. Aras é tão responsável pela permanência de seu chefe no poder quanto Moro o foi no resultado eleitoral de 2018, ao  tirar Lula do páreo. Descartado de uma eventual indicação para o STF na vaga do ministro Marco Aurélio , que se aposenta em 5 de julho, o PGR busca desesperadamente assegurar um novo mandato no cargo, a ponto de jogar no lixo, de forma descarada, a Constituição, que deveria ser seu livro de cabeceira.  Em defesa dos “amigos do rei”, ultimamente pediu o arquivamento do inquérito sobre os atos antidemocráticos,  a rejeição da ação de advogados contra a lei de Segurança Nacional, que serve aos interesses autocráticos do governo, e agora quer que os juízes do Supremo sejam obrigados a consultar o Ministério Público antes de atuar em investigações, medida cujo primeiro beneficiado seria o ministro do Meio Ambiente, pego em flagrante de cumplicidade de contrabando de madeira extraída ilegalmente. Sua lealdade ao criminoso é admirável. Aras tem se mostrado um escudo intransponível. 
Quem aposta na fragilização do “Messias que não faz milagres” daqui até a eleição se engana. Ele poderá contar com a vacinação, que tanto combateu, e com o crescimento da economia, puxada pelo resto do mundo. A situação portanto deverá ser um pouco melhor e muitos esquecerão todo ou parte do incomensurável mal que ele fez ao país. Os brasileiros não praticam o exercício da memória, como demonstraram ao eleger um sujeito que defende a ditadura e tem por ídolo um torturador. 
Se mesmo assim não for reeleito, hipótese mais provável, ele imitará seu amigo Trump, a quem jurou amor eterno num rompante linguístico em que gastou seu inglês limitado a três palavras : I love you.
Só que Jair não é Donald e Washington não é Brasília. Trump tentou o golpe alegando fraude maciça e reclamando a anulação do voto; contou para tanto com os supremacistas brancos  e outras organizações neonazistas, mas não teve o apoio das forças armadas nem das polícias. O brasileiro fará a mesmíssima coisa : alegará fraude maciça e reclamará a anulação da eleição. Preparando o caminho, já defendeu o fim da urna eletrônica, de longe o sistema mais seguro e transparente, e sua substituição pelo voto em papel, facilmente manipulável. 
A diferença fundamental no entanto está no fato de que o capitão conta com o apoio de ao menos parte das Forças Armadas (que se negaram a punir o general Pazuello por violação das regras militares), das polícias militares de inúmeros estados, das polícias civis e das milícias, que agem a céu aberto tanto no combate ao crime organizado como no apoio político à família presidencial. Esses grupos paramilitares matam indiscriminadamente traficantes, líderes comunitários, políticos de esquerda como Marielle Franco e até crianças. As chamadas forças de segurança, que foram presenteadas com armas ao bel prazer e impunidade, fecham com o capitão.
Quanto às Forças Armadas, recentes episódios deixaram claro que entre a obediência à Constituição, caucionada pelo ex-ministro da Defesa e pelos então comandantes das três armas, e a submissão ao presidente, os quartéis hesitam. 
As cenas que virão a ser filmadas no Brasil pós-eleitoral serão infinitamente mais chocantes que aquelas do Capitólio, em janeiro de 2021. O golpe poderá desembocar num confronto mais amplo e sangrento. A previsão é de que 2022 será um ano violento. 
A cultura autoritária, que estava dispersa após a ditadura, convergiu em direção de Bolsonaro, se organizou em torno do bolsonarismo. É forte e não desaparecerá tão cedo, mesmo que não haja reeleição. 
Para derrotar o fascista adorador da morte e tentar evitar o golpe, o caminho parece ser a formação de uma Frente Ampla, da direita à esquerda, unindo todos os antibolsonaristas. 
Essa estratégia está sendo aplicada com sucesso em Israel, onde se constituiu uma coalisão heteróclita para varrer Bibi Netanyahu, agregando  partidos de extrema-direita, centro, esquerda e até um Partido árabe muçulmano israelense. 
Também na Hungria, uma frente ampla se formou para vencer o direitista radical Viktor Orban, com relativo sucesso. Nas municipais do ano passado, a mais estranha coligação de partidos jamais vista elegeu prefeitos de uma dezena de cidades importantes, inclusive a capital, Budapeste. 
No entanto, a situação nesses dois países governados por hipernacionalistas de direita amigos do capitão (ambos estiveram em sua posse) é muito diferente da brasileira.
Em Israel, o líder centrista Yaïr Lapid, que costurou a união da oposição como uma colcha de retalhos, abriu mão do cargo de primeiro-ministro nos dois primeiros anos do mandato em favor de Naftali Bennett, sionista religioso do partido nacionalista Nova Direita, apesar das diferenças ideológicas entre ambos e do fato de Lapid ter maior número de deputados na Knesset.
Quanto à Hungria, a nova coalisão tem conseguido apresentar candidaturas únicas em todos os níveis . Já está definido que em 2022 haverá um só candidato oposicionista para enfrentar Orban. Hoje, as pesquisas apontam empate.
No Brasil essa estratégia não vinga. Nenhum presidenciável parece disposto a abrir mão da candidatura em prol da união por uma vitória incerta. Pelo menos não no primeiro turno. A recente reaproximação entre Lula e FHC são provas cabais da dificuldade que nos espera. O tucano admitiu publicamente votar no petista no segundo turno e mostrou-se arrependido de não tê-lo feito com Haddad. Mesmo assim, o PSDB apresentará um candidato à presidência, que poderá ser Tasso Jereissati, Doria ou outro que, como os dois primeiros, não terá chance de se eleger. 
No primeiro turno haverá, quando muito, a constituição de federações de partidos de uma mesma família política e não a formação de uma ampla frente antibolsonarista com candidaturas únicas.  As negociações de hoje só serão concretizadas entre os dois turnos, mesmo que a missão seja salvar a democracia.  
No campo progressista, o PSOL se radicaliza, puxa ainda mais para a esquerda em busca do impeachment, sonhando com uma mudança na correlação de forças. Esta estratégia levou à saída de Marcelo Freixo do partido. Ao anunciar sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro, ele busca formar ao menos uma aliança dos partidos de esquerda. Missão mais que difícil. 
Ao contrário, o PT quer manter essa correlação, que colocaria face a face Bolsonaro e Lula, com vantagem para o ex-presidente, conforme as pesquisas. Lula conta com seu poder negociador e lança pontes para a direita. Paradoxalmente, esse também é o cenário preferido do capitão, que acredita ainda ser possível capitalizar em cima do antipetismo entre os dois turnos. O « pas-de-deux » é a coreografia mais provável desse balé eleitoral. 
Enfim, Ciro Gomes parece ter se dado conta que não tem nem terá espaço à esquerda. Por isso ataca Lula e o PT, espera ganhar a direita não bolsonarista e entrar na disputa como um candidato híbrido, metamorfoseado em Terceira via. É uma aposta improvável, mas o cearense não tem opção. A direita, também por falta de melhor, ver-se-ia disposta a abrir-lhe os braços. Terceira via é uma falácia.
De qualquer maneira, não veremos no ano que vem Lula e Ciro dividindo palanques, lembrando porém que em política a palavra nunca há muito foi excluída do dicionário.
Assim, tudo leva a crer que a Frente Ampla, se houver, só sairá do papel após o primeiro  turno, com negociações e negociatas de último minuto. Tempo sempre haverá  para uns e outros bandearem para Paris.

Precisamos falar sobre o Antissemitismo na Esquerda

Depois de um artigo publicado a cerca de 20 dias, “Meu amigo judeu”, para instigar o debate sobre o antissemitismo na esquerda, fui mencionado em uma publicação apócrifa no site www.causaoperaria.org.br. O linguajar do autor não deixa dúvidas de que se trata de um pretenso comunista de biblioteca burguês. De operário não tem nada. Aquele tipo que a direita chama de comunista caviar.

O artigo é um festival de clichês que me remeteu aos anos 70. De inicio uma foto do que seriam soldados israelenses prendendo um jovem palestino. Existem milhares de fotos como esta, mas o autor escolheu justo uma que não é o caso. Os soldados em questão não são israelenses, e o preso provavelmente não é palestino. Seria um erro involuntário, mas ele continua errando quando diz que o grupo que administro no Facebook, “Resistência Democrática Judaica” é de sionistas socialistas. Agora já não se trata de erro, mas de interesse na crítica. Na verdade trata-se de um grupo judaico com membros de todo espectro político que em comum são antifascistas e portanto antibolsonaro. Nele existem membros até mesmo antissionistas.

Já de início o autor chama o Estado de Israel de Nazista, uma ofensa inominável a qualquer judeu. Todos nós perdemos familiares no Holocausto. O nazismo pretendeu nos exterminar da face da Terra. Montou uma indústria de morte com esta finalidade que chamaram da “Solução Final”. Israel comete crimes de guerra, mas dizer que se trata de um regime nazista é encerrar qualquer debate viável e civilizado.

Ele distorce minhas palavras em relação as vítimas do recente conflito de Gaza. Usa dos mesmos números que menciono, mas monstruosamente trata as mães que perderam seus filhos de forma diferente. Para ele as mães das 66 crianças palestinas são diferentes das duas mães israelenses. Talvez ele não tenha ouvido falar do atentado de Maalot. Em 15 de maio de 1974, três palestinos da Frente Democrática para Libertação da Palestina se infiltraram vindos do Líbano, tomando de assalto a escola de Maalot, uma pequena cidade ao Norte de Israel. No caminho para a escola os três palestinos mataram duas árabes israelenses, entraram em um apartamento de um prédio e mataram o casal e seu filho de 4 anos. Deixaram o prédio e foram para a escola Netiv Meir fazendo lá 115 reféns, entre eles 105 crianças. O resultado desta ação foi de 25 reféns assassinados, sendo 22 crianças e 68 feridos. Os três palestinos foram mortos pelas forças de segurança. Neste caso, as mães palestinas também eram diferentes das mães israelenses?

A extrema direita israelense tenta sempre desumanizar os palestinos, uma tática que dá ao opressor uma justificativa moral para manter a ocupação. Parte da esquerda faz a mesma coisa com os israelenses, mas neste caso trata-se de uma justificativa moral para expressar seu antissemitismo.

A intenção do autor não foi discutir o antissemitismo de esquerda proposto por mim.

Para ele o Estado de Israel não deveria existir. Para os nazistas não deveriam existir judeus. Percebem a semelhança? Eu utilizei o conflito recente em Gaza para mostrar como os antissemitas na esquerda se aproveitam do conflito para externar seu preconceito. Ele, vestindo a carapuça, se aproveitou do conflito para demonstrar que tenho razão.

Ele desdenha minha solidariedade, como sionista socialista, a causa de um Estado Palestino  e exalta os milhões de árabes que seriam solidários. Um momento de reflexão: além do Qatar, quem mais se preocupa com eles atualmente? O Irã que não é árabe e pensa como o autor, em destruir Israel. A União Europeia que não é árabe, e é a favor de uma solução de dois Estados. Em que país árabe os refugiados palestinos receberam cidadania? Vamos ser realistas, a tragédia palestina está perdendo o trem da história e isto não pode acontecer. Para constar, esta parte doentia da esquerda tem culpa neste processo.

E por fim temos o Hamas. Eu menciono em minha tréplica ao artigo inicial, que o Hamas é um regime totalitário onde não existe o menor respeito aos direitos humanos e que em muitos outros países árabes, não é diferente. Como um bom cidadão do mundo ele concorda com estes fatos, mas na sua ótica, tais desrespeitos são menos importantes no momento, afinal estão lutando contra o inimigo sionista e toda violência é justificável, inclusive contra seu próprio povo em Gaza. Diferentemente dele, eu acho que são parte do problema. O Hamas é uma organização que, diferentemente da Autoridade Palestina, não aceita a existência do Estado de Israel. Sua pretensão é a mesma do Irã, exilar os israelenses, trazer de volta os refugiados palestinos e criar um Estado Palestino em substituição ao Estado de Israel. Ainda assim, temos de encontrar uma maneira de sentar com eles a mesa de negociações.

Dado a um problema de interpretação de texto, ele me acusa de comparar Bibi e o Hamas, como Lula e Bolsonaro. Coisas incomparáveis. Eu concordo, tanto que não foi o que eu escrevi. Não há comparação em meu texto. Na verdade, digo e repito que o recente conflito foi do interesse de Bibi e o Hamas, serviu aos interesses de ambos.

Eu me permito aqui sugerir ao autor do artigo alguns temas para novos artigos: por exemplo, a invasão da Criméia e sua anexação ao território da Rússia. Outro tema , não menos importante para nós de esquerda são os Campos de Concentração na China, ou de Reeducação, como eles preferem, em que milhares de muçulmanos da etnia Uigur são mantidos. São fatos também recentes que parecem não sensibilizar a esquerda em geral e especialmente a parte antissemita, talvez por não envolverem judeus.

Ao contrário desta parte da esquerda, a direita é mais explícita em seu antissemitismo. Não se importa em desfraldar a bandeira nazista, de publicar obras antissemitas como os Protocolos dos Sábios do Sião, de apontar os judeus como donos da mídia internacional, de dominarem o sistema financeiro mundial e há entre eles quem diga, inclusive, serem os judeus os verdadeiros criadores do Covid-19 para ganharem dinheiro com as vacinas. Claro que não soa nada estranho algumas pessoas de esquerda que pensam a mesma coisa, afinal de contas, em matéria de antissemitismo, eles concordam uns com os outros.

Que tal vocês saírem deste mundinho e ajudarem de fato famílias palestinas que necessitam? Ajudem famílias palestinas clicando aqui.

Israel, Palestina e minha resposta ao meu amigo não judeu

Israel, Palestina e minha resposta ao meu amigo não judeu

Caro Martonio Mont’Alverne Barreto Lima, antes de tudo, muito obrigado por sua resposta ao meu artigo “Meu Amigo Judeu”, publicado no Brasil 247. É sempre um prazer conversar com alguém que antes de tudo procura mostrar o que temos em comum, e depois apresentar o que discorda. Tudo de maneira respeitosa, e mesmo assim contundente.

Faço também questão de dizer que nós os dois, apesar dos inúmeros casos citados de falta de manifestações da esquerda, ainda estamos longe de mostrar tudo o que acontece e fica restrito a poucas linhas de um jornal, ou em sites que precisam ser acessados por quem se interessa pelo que verdadeiramente acontece em nosso planeta. Infelizmente a maioria destes tristes episódios da vida real não transita nas redes sociais.

Concordamos plenamente de que Bibi e o Hamas são um obstáculo para a paz. De que se deve criticar as atitudes do governo israelense com relação à ocupação e ao tratamento desigual que dá aos árabes israelenses. Da mesma forma o tratamento que o Hamas e o mundo árabe em geral, dá aos LGBTs e tantas outras minorias.

Eu estou ao lado da esquerda que critica Bibi desde sempre. Por tudo que ele fez e principalmente pelo que deixou de fazer. Me é trágica a visão da situação em que nos encontramos, especialmente sabendo que a violência traz mais violência e o ciclo se renova a cada par de anos. Não discordo em nada. Saliento ainda que mesmo tendo sido o Hamas o responsável por este último ciclo com o lançamento de foguetes contra Jerusalém, não concordo com o uso desproporcional da força. Mas que fique claro que a dor da morte, da perda de entes queridos é a mesma dos dois lados da fronteira. As lágrimas derramadas pelas mães palestinas são iguais as lágrimas derramadas pelas mães israelenses.

Em nenhum momento do meu texto escrevi que toda a esquerda é antissemita. Jamais diria uma coisa destas porque não é verdade. O que eu disse e reafirmo, é que parte da esquerda é antissemita. Infelizmente o preconceito é um flagelo humano, independe de ideologias e abrange todo o espectro político.

Eu o convido, caro Martonio a uma simples reflexão. Vamos imaginar, apenas para fins desta conversa, que Israel não existisse, aliás que nunca existiu. Concordamos que a esquerda silencia, ou quase não se manifesta contra as tragédias humanas que acontecem ao redor do mundo. Neste caso seria correto supor então que não existiriam mais manifestações contra Israel? Sim e não. Explico: não contra Israel que nesta nossa reflexão não existe, mas parte da esquerda continuaria se manifestando contra os judeus que “querem dominar o mundo, que dominam a economia mundial, a imprensa internacional” etc.

Mas então vamos um passo adiante e vamos imaginar que não existissem judeus também. Então, sim, o silêncio seria quase completo. O problema nunca foi Israel, o problema são os judeus. A isto eu chamo antissemitismo da esquerda.

Agora dentro deste mesmo quadro alguém poderia achar que existiria um Estado Palestino. Ledo engano. Se não existisse Israel, aquele território seria parte da Jordânia, da Síria ou do Egito. Talvez estivesse dividido entre eles. O mesmo que acontece com os curdos e o Curdistão.

Voltando à realidade eu creio que parte da esquerda que se manifesta de maneira antissemita, o faz pela simples razão de que Israel é um Estado Judaico. Tire os judeus da equação e eles passam a fazer parte da maioria da esquerda que faz ouvidos moucos às tantas mazelas humanas que já mencionamos. Outra parte faz as críticas certas e com razão sobre o que acontece aqui.

Eu hoje estou com 63 anos. Sempre militei na esquerda. Trafeguei sem problemas nos mais diversos fóruns antissionistas. Tenho o bom senso de diferenciar um antissionista de um antissemita. Já fui alvo de ataques dentro da comunidade judaica em discussões sobre isso. Já me acusaram de traidor, de antissemita, de anti-israelense, esquerdista e me chamaram de tudo que possas imaginar. Ser de esquerda na comunidade judaica não é fácil. Por outro lado, parte da esquerda me chama de imperialista, de assassino, de genocida, sionista. Ser judeu na esquerda não é fácil. Da direita não chegam menos desaforos.

O fato é que sempre fui um sionista socialista e aprendi a conviver com isso. Vivi o socialismo no Kibutz (fazendas coletivas) e hoje vivo na cidade. Não compactuo com o sionismo religioso, nem mesmo com o sionismo da direita. Algo muito parecido com o Peronismo na Argentina. Como se sabe, lá sempre existiram Peronistas de esquerda, de centro e de direita. Ser antiperonista lá é quase como ser anti-Argentina.

Nós, judeus sionistas socialistas somos a linha de frente na luta por um Estado Palestino. A nossa voz é necessária, é o contraponto às ambições das facções fascistas da sociedade israelense que desejam anexar todo o território ocupado.

Eu acredito que ninguém melhor que um negro para me explicar o que é o racismo. Ninguém melhor que um homossexual para me explicar a homofobia. Assim sendo, ninguém melhor que uma mulher para me explicar o que seja a misoginia. Por que seria diferente com relação aos judeus? Por que não pedir a um judeu que explique o que é antissemitismo? Por que as pessoas se acham no direito, e digo isso sabendo que muitos o fazem de boa vontade, de me dizer o que de fato é uma agressão à minha condição como judeu e o que é de fato uma agressão restrita a Israel? Acham realmente que depois de todas as perseguições, de todas as tentativas de sermos varridos do mapa, do Holocausto, chegamos até os dias de hoje sem saber quem é um antissemita?

Meu querido Martonio, nunca vais escutar de minha pessoa que toda crítica a Israel é antissemitismo. De fato, seria muito comodismo e uma falta de bom senso de minha parte. Sempre fui muito cuidadoso neste sentido. Tenho mais de 45 anos de militância nas costas para saber que quando estamos diante de uma pessoa que odeia judeus, se comporta como antissemita, fala como antissemita, ela é antissemita. Simples assim.

Tenho um amigo de infância que faz parte da ABJD e nutro o maior respeito pela instituição e seus membros. Sei que ali ao seu lado se encontram pessoas progressistas, muitas de esquerda com alta envergadura intelectual e uma enorme preocupação com o Brasil, sua gente, suas instituições e a democracia. Apreciei muito suas palavras e agradeço muito por ter nos colocado na posição de dialogar.

O Brasil247 dá não só a mim, como ao meu amigo e companheiro Jean Goldenbaum, também um judeu sionista socialista a oportunidade de publicar nossos textos no portal conhecendo nossa vida de lutas por um mundo melhor. O Jean inclusive possui um programa na TV247. Invariavelmente recebemos comentários antissemitas e até de baixo calão de parte de leitores. Todos se dizem de esquerda, humanistas, progressistas e alguns até pedem o nosso banimento. Não estou me referindo a comentários com sugestões, cumprimentos, discordâncias, críticas etc. Algo normal para se ler em relação ao que escrevemos e que todo autor de um texto precisa receber. Estou falando de ataques virulentos e às vezes contendo ameaças a ponto de solicitar que sejam retirados. Isto faz do Brasil247 um portal antissemita? Claro que não.

Não podemos tapar o sol com a peneira e acreditar que toda a esquerda é de paz e amor. O preconceito também existe do lado de cá. Quem transita nas redes sociais conhece bem isso. Mulheres são assediadas em grupos de esquerda. Homossexuais são humilhados em grupos de esquerda. Negros são maltratados em grupos de esquerda. Porque seria diferente com os judeus, não é verdade?

Bem meu caro amigo, mais uma vez obrigado por sua resposta a minha instigação. Fico muito honrado com o que escrevestes e em saber que concordamos na maioria das coisas, podendo respeitosamente discordar de outras. Isto nos faz pensar e mostra que o assunto não se esgota nesta troca de textos, podendo ser discutido honestamente quando cada um percebe qual é a percepção do outro para o tema e pode, mesmo que por alguns instantes, se colocar no lugar dele.

 

Insubmissão e humanidade

Da minha aldeia vejo o quanto de Terra se pode ver no Universo

Por isso a minha aldeia é tão grande

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura”

(Alberto Caeiro)

 

Não sei se todo mundo tem a lembrança da primeira noção de que a morte existe, mas eu me lembro perfeitamente  da minha. Tem gente que acha a infância uma fase linda e idílica, teimo em não concordar. Porque é o momento que você se sente existindo e tudo, todos os sentimentos, inclusive o estranhamento a vida e perguntas que depois você descobre que nem seus pais podem responder, te atormentam. As brincadeiras e as fantasias, para mim pelo menos, eram uma forma de não pensar naquilo que nem eu, nem ninguém, tinha respostas. Um interlúdio.

Eu tinha uma cachorra, a Petit. Ela acabou cruzando com o cachorro da vizinha e eu via sua barriga crescendo, sabia que em breve teríamos cachorrinhos. Petit pariu debaixo da cama. E eu, que nada sabia sobre a ferocidade das mães, ao protegerem seus rebentos,  mesmo quando são doces, como era Petit, quis pegar um dos filhotinhos recém-nascidos e por pouco não levei uma mordida. Um adulto me explicou que enquanto eles fossem pequenininhos, era para deixá-la amamentando em paz. Mas minha vontade era tão grande de pegar um filhote que desobedeci. Fui devagarzinho para a toca, e vi que havia  um filhote a parte dos outros. Sozinho, largado num canto,  enquanto os irmãos mamavam avidamente Senti um misto de pena, pelo abandono do bichinho, de alegria , porque poderia  ver e acariciar o filhote e uma certa raiva da Petit, como se ela estivesse excluindo um filho da ninhada por não gostar dele. Então me aproximei devagar, ela não rosnou e peguei esse filhote. Só que alguma coisa estava errada. Fiz carinho, ele não se mexia. Estava rígido. Tentei abrir os olhos e só vi opacidade. Tentei colocar em pé e ele caía. Ele permanecia imóvel.

Chamei meu pai , nem liguei que podia levar uma bronca , mostrei o cachorro e perguntei o que era. Eu deveria ter uns quatro anos, porque minha irmã era bebê e a Petit foi me dada exatamente pra aplacar meu ciúme. Meu pai,  gravemente, do jeito que mantém até hoje quando quer falar de coisas sérias, me colocou sentada na janela. Eu era tão pequena que minhas pernas passavam pela grade de ferro e eu ficava balançando-as. Nervosa, queria uma resposta  e aí veio uma explicação que nunca vou esquecer. ”Não tem jeito filha, ele nasceu doente,  não tem mais conserto, isso que é morrer”. Aquilo bateu forte em mim e lembro de ter chorado. Porque mesmo não entendendo muito bem, se isso aconteceu com o cachorrinho, acontecia com todo mundo. Achei injusto. Porque eu mal estava me acostumando com a vida, que sempre me causou estranheza e descobria, como já escreveu Clarice:” que também se morre”. Comovido com minhas lágrimas, o céu estrelado, ele apontou pra cima e falou: ”Ele agora virou aquela estrela ali, tá feliz.” Fiz de conta que acreditei. Mas no fundo senti uma enorme pena do meu pai, porque o ceticismo nasceu comigo e achava realmente  que ele cria naquilo. Nunca que um cachorro ia virar estrela assim, sem mágica, sem nada. Esse foi o dia que descobri que a vida tinha fim.

Aos poucos fui me acostumando a essa realidade. E com a idade fui vendo os mais velhos da família seguindo o curso natural da vida, outros indo mais cedo do que deveriam, mas há de se encarar. Nunca fui religiosa, nunca tive a experiência do religare, por mais que tenha me esforçado. Não creio em vida após a morte, mas claro que é assunto instigante. Como diz a sabedoria popular: ”Ninguém voltou para contar”. Eis que  outro dia caí num documentário da Netflix cujo tema era: pessoas que passaram pela experiência da morte por alguns minutos e voltaram.  Um caso que me despertou a atenção foi o de uma gringa, que praticava canoagem com o marido e estava atravessando  um rio perigoso em algum país da América Latina. Sei que apesar da perícia dela, não era amadora no esporte, acabou indo pelo outro lado do rio e foi jogada muito longe. Essa moça passou horas debaixo d’água com grande parte dos ossos quebrados. E ela falou que naquele momento, que não conseguia se mover, nem respirar,  ter visto os avós, sobre uma luz aconchegante e se lembra da hora  de um deles dizer após abraçá-la :”Ainda não é a sua hora”. Foi encontrada ,rolaram  varias coincidências como uma ambulância estar passando naquele lugar ermo quando retiraram ela do fundo e tudo foi documentado. Sua longa recuperação para readquirir os movimentos e tal . Aquilo me intrigou, porque eu estive perto da morte. Muito perto. Tive uma pneumonia, logo depois da minha filha nascer, na verdade já era sinal da artrite reumatoide, ainda não diagnosticada. E a bactéria me derrubou. Duas semanas de UTI, com o pneumologista, a infectologista e meus pais tendo certeza que dali eu não escaparia. Sono profundo, soube depois que passei por vários procedimentos invasivos, tudo que vocês estão vendo acontecer nas UTIs agora, passei por coisa semelhante.

Eu fui caindo em mim de uma forma muito estranha. Eu achava que estava numa casa dos anos 70, com tacos de sinteco, e grandes samambaias choronas penduradas no teto. O que me incomodava era o barulho incessante do pi, pi, pi. Aquele barulho que me fez ter consciência de que era um monitor de UTI. Consegui abrir os olhos, vi que estava num lugar asséptico, com uma velhinha nas ultimas ao meu lado. Eu estive a a beira de uma septicemia. Mas assim como a Petit , em dado momento, lembrei que tinha uma cria. E que precisava viver. E surpreendentemente, para espanto de todos, principalmente do pneumologista, fui ganhando força. A minha ferocidade era comigo mesma. Uma parte de mim lutando com a outra. Mas não vi luz, não vi meus avós, porque ate minha experiência de quase morte é fuleira , D’us não capricha no meu roteiro, é incrível. Ao invés de tuneis, abraços saudosos dos antepassados, festas do Grande Gatsby  eu caí num cenário daquela série da década de setenta-oitenta, Ciranda Cirandinha. Faltou só a Lucélia Santos de polaina e collant, dançando jazz  ao som de Pai, tocada e cantada pelo Fabio Junior, o pai do Fiuk. Vai que cada um tem o que merece né?

O fato é que cá estou para contar a história. Acredito que viva, embora muitas vezes ache que estou penando em algum umbral, tal a nossa dose diária de surrealismo. Tudo isso me veio a mente porque encontrei, em uma caixa  antiga de livros, uma edição de 1945, que ganhei de presente em 1994, do livro Novos Contos da Montanha do Miguel Torga. Esse autor, que tanto prezo, nasceu numa aldeia transmontana, vindo de uma família muita humilde. Seu verdadeiro nome era Adolfo Correia da Rocha. Como era normal acontecer em famílias com  poucos recursos, aos 10 anos saiu da casa dos seus pais e foi trabalhar num casarão de gente rica no Porto. Era obrigado a usar roupa branca, polir corrimão, ser garoto de recados, todas essas explorações de trabalho infantil que infelizmente conhecemos tão bem nesse nosso Brasil.

Permaneceu um ano nessa função. Até ser demitido. Motivo: INSUBMISSÃO. O outro destino para um garoto pobre , naquele inicio do século XX, para levar uma vida minimamente decente, era entrar para a vida religiosa. Foi para um seminário, onde aprendeu latim, português, literatura, filosofia. Dois anos depois avisou ao pai que essa vida não era para ele. Hierarquia, dogmas, não era esse o seu caminho.

Em 1920 finalmente veio morar no Brasil, na fazenda de um tio em MG e esse tio teve sensibilidade para entender que,  pode não ser via de regra, mas insubmissos tendem a ser inteligentes. Ele fez o ginásio e o secundário em Minas e o tio, pelos 5 anos que ele trabalhou na fazenda, custeou seus estudos de medicina na Faculdade de Coimbra. O primeiro doutor da família, mas que nunca, nunca, nunca , abandonou suas raízes. Além de exercer a medicina, atendendo sempre os mais pobres, pessoas sem posses, em seu pequeno consultório, foi no mundo das letras que se encontrou. Como ele escreveu no prefácio dessa minha edição: ”Poeta, prosador, é na letra redonda que tem descanso as minhas angustias”

Navegou por todas as formas literárias, mas a que mais me encanta, talvez por eu achar o gênero mais difícil, é o conto. Seu pseudônimo é uma homenagem a Cervantes (Miguel) e Torga é uma planta que nasce nos lugares mais secos de Portugal. Ela desafia as possibilidades e floresce no meio das pedras. Mais uma vez a palavra ferocidade.

Torga é antes de tudo um humanista. Nesse livro em questão, encontramos personagens com defeitos e qualidades, capazes dos gestos mais vis, mas também dos mais ternos e generosos. Ele dá vida a pessoas simples, que bem poderiam ser de sua aldeia. Não  sei de quem é a autoria dessa frase, mas me lembro de um professor proferi-la numa aula, o que me levou a usar a epígrafe do Caeiro. Quanto mais particulares formos, mais universais seremos. E da aldeia do Torga, dá pra se ver o mundo.

Tudo isso na verdade é uma introdução para falar de um dos contos, na minha opinião, mais singulares da Literatura Portuguesa e que inicia o livro. O Alma Grande. A primeira frase do texto é:” Riba Dhal é terra de Judeus”.  Uma pequena aldeia, que por motivos óbvios finge assimilar o catolicismo, onde o padre de quando em quando vai visitar, para ensinar o catecismo, falar sobre o Novo Testamento, ensinar o Pai Nosso, a Ave Maria. No entanto, como diz o autor: ”Na destreza com que se desvencilham do interrogatório, não há quem possa desconfiar, que por detrás da sagrada Cartilha está plantado em sangue o Pentateuco”. Na hora da morte porém, que é o momento que já nenhum segredo importa, a comunidade é tomada pela aflição de que o doente , na extrema unção, faça a confissão de sua verdadeira crença. E aí que surge o personagem que dá o titulo ao conto: O Abafador. Desses servos de Moisés, palavras do autor,  o maior de todos era o Alma Grande. Quando alguém adoecia e sabia-se que a morte era iminente, antes que o padre aparecesse, o Alma Grande era chamado. Ele afastava as pessoas do quarto do doente, passava o braço pelas costas e aplicava o joelho sobre o tórax, ate asfixiá-lo. Era um acordo tácito. Não falado. Mas sempre que havia um moribundo,  a preocupação de salvaguardar a comunidade ia além de todo e qualquer princípio e o Alma Grande era chamado. Torga pinta-o como um homem grande, forte, de nariz adunco, solitário, que morava no alto de uma ladeira.

Um dia, o Isaac, um rapaz jovem,  adoece. Sua mulher Lia faz de tudo para que ele melhore de uma febre altíssima. O médico da comunidade  diz que não vai poder fazer nada, quinze dias febris, a morte era certa. E a Lia, chorosa,  pede para que o filho deles, o pequeno Abel, vá chamar o Alma Grande. O menino sobe a ladeira e diz que a mãe quer vê-lo, porque o pai está doente. Na inocência, Abel pergunta :”Mas o que o tio vai fazer com ele?”. Alma Grande, homem de poucas palavras, segue em silencio. Na casa, as pessoas estavam na sala, a Lia desolada e o Abafador adentra no quarto do doente. Mas aí é que tudo muda :”Quando o Alma Grande entrou, o Isaac estava no auge de um combate que quase sempre se trava de corpo estendido. O inimigo era uma parte de si mesmo apostada em perdê-lo. E a outra metade, um pedaço de ser nobre e agradecido a seiva, corajosamente defendia o resto da muralha (…) De nada mais precisava, quem olhasse com limpos olhos humanos, a solenidade de tal hora.” Mas por desgraça, o Alma Grande não conseguia enxergar aquilo. Insensível aos mistérios da vida,  ele avançou para o leito, com as mãos ao pescoço, com o joelho a arca do peito”, para depois se retirar com sua missão cumprida. 

E aí o combate se inicia. O embate entre dois homens. Um a saber que ia matar, outro a saber que ia morrer. Por mais que o Isaac gritasse “Ainda não”, o Alma Grande queria cumprir sua missão. Nessa situação, a porta do quarto se abre. Era o Abel. Ele , o Abafador, não queria testemunhas. “E sem coragem para encarar os arregalados e aflitos olhos do pequeno, que o varavam, silenciosamente, saiu. Atravessou a sala cabisbaixo, longe da grandeza trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida e a vida não lhe dava grandeza”.

O Issac se curou, os dias seguiam normalmente, mas “Só os três sabiam que o drama fora mais negro e mais profundo”. O Isaac queria vingança, o Alma Grande pela primeira vez sentiu medo e o Abel, via apenas a angústia de não entender. Ate o momento que Isaac fez uma tocaia para o Abafador , e sendo mais novo e mais forte, com os olhos implacáveis que viu no Alma Grande na hora da agonia, asfixiou-o. O Abel , que tinha seguido o pai, assistiu a tudo atrás de um penedo. E assim Torga termina:” E, com mais um estertor apenas, estavam em paz os três. O Isaac tinha a sua vingança, O Alma Grande já não sentia medo , e a criança compreendera, afinal”.

Li muitos artigos sobre esse conto, alguns bem equivocados falam sobre eutanásia, outros do Alma Grande como salvaguardor daquela comunidade, mas não é sobre isso que quero falar. É sobre o Alma Grande, sua função e o desprezo pela vida .Muitas vezes, especialmente no episódio de Manaus, com pessoas morrendo asfixiadas por falta de oxigênio, pessoas amarradas as macas por falta de sedativos e o genocida que nos governa conseguindo fazer piada e achar graça disso tudo, esse personagem me veio a mente. Como eu sempre falo, ele tem um verdadeiro apetite por cadáveres. Assim como o Alma Grande, a vida não lhe traz grandeza.

Torga não era religioso. Era humanista. Na sua introdução, pede a nós leitores, que não julguemos seus personagens. Só que além de escritor, libertário, ele era médico e honrava seus juramento. Respeitava a vida. Falava de sua gente que não tinha voz. No prefácio dessa edição, ele escreve sobre sua ida a cidade natal: ”Encontrei tudo como o deixei ano passado. Apenas vi mais fome, mais ignorância e mais desespero”. Se eu não tivesse indicado  vocês teriam certeza que foi algum escritor falando desse Brasil distópico de 2021.

Eu respeito a vida. E tenho lisura diante da morte. Não acredito em D’us e todos que me conhecem bem sabem, mas creio , ainda, no humano. Existem pessoas que se esforçam para ser gente, no sentido mais bonito da palavra.. Porque se eu não pensar isso prefiro parar de viver. É necessário um pouco de esperança.

Estamos atravessando uma tempestade sem fim. Desculpem a melancolia do texto, mas perdi gente amada e próxima essa semana, algo que poderia ser evitado. E revolta e angústia são péssimas companheiras.  Termino esse texto com  algo que constatei hoje. O nosso novo ministro da Saúde, do qual minha única opinião é o fato de integrar esse governo vergonhoso,  portanto cúmplice desse horror, tem o sobrenome de Queiroga. Queiroga e Torga são as mesma planta, mesmíssima. A mudança de nome é regional. E ambos, além dos sobrenomes que se assemelham , são médicos. Mas as coincidências acabam aí. Entre um insubmisso anti-salazarista e um capacho de um genocida não tem nem o que dizer.

Valsa triste

Uma majestade estranha desprendia-se deste titânico monte de escombros (Victor Hugo, em Os miseráveis)

Na pandemia, andar de metrô virou atitude kamikaze. Os usuários acabam sendo transmissores involuntários da Peste. Lamentando muito, fui obrigado a usar táxi para me locomover. Vou sempre com um motorista conhecido, cuidadoso. Dá para viajar sem muita neura.

Numa das conversas com o taxista, comentamos sobre o contraste entre os dois lados da orla carioca. De um, a maravilha do horizonte azul, enfeitado com ilhas. Do outro, os paredões de concreto, despersonalizados, testemunhas da ocupação predatória dos espaços na cidade. Passando em frente a uma escola municipal na avenida Atlântica, ameaçada de demolição pelo prefeito, para orgasmo dos especuladores imobiliários, ensaiamos um dueto de palavrões em homenagem ao janota que ocupa o Piranhão.

Perguntei ao ilustre motorista se já tinha ouvido falar de Marc Ferrez. Ante a resposta negativa, deitei falação. Marc, brasileiro descendente de franceses, foi um dos mais importantes fotógrafos deste país. Registrou paisagens e gente nos séculos XIX e XX. As imagens da antiga avenida Central, atual Rio Branco, mostram uma beleza arquitetônica de tirar o fôlego. Pois bem, com poucas exceções, foi tudo demolido para dar lugar a prédios comerciais projetados por arquitetos que, pelo mau gosto, mereciam ganhar um bacalhau do Chacrinha.

Com o passar dos anos, os arredores da Rio Branco, ainda em parte habitados (a família de Carmen Miranda, emigrada de Portugal, morou um tempo na região do SAARA), foram sendo abandonados. Muitos prédios de interesse histórico ou de nobreza arquitetônica viraram pouco mais do que ruínas. Hoje, mais de 500 imóveis que contam parte da história carioca no centro estão abandonados ou não passam de cascas na iminência de desabar. Desamor criminoso pela memória urbanística, a consagrar a estética da desolação.

Os escombros do centro ameaçam sentar praça no campus da UFRJ. Há um processo de asfixia orçamentária da instituição, que vem desde 2011. Em 2021, a universidade pode parar. Os recursos disponíveis não serão suficientes para cobrir sequer as despesas obrigatórias básicas. O resultado já se vê nas imagens melancólicas de abandono.

Quando entrei para a Escola de Química, o campus da ilha do Fundão ainda cheirava a tinta. Restos de obra e andaimes eram visíveis. A gente sentia enorme orgulho de estar ali, instituição pública de excelência. Um de nossos professores, Horácio Macedo, foi eleito, anos depois, para a reitoria. Certamente o primeiro reitor comunista das universidades brasileiras. Horácio, professor brilhante, trabalhou para aproximar a comunidade acadêmica do entorno do Fundão. Para os que não moram no Rio, digo que, cercando os prédios da UFRJ, existia uma enorme favela horizontal, a Maré, com barracos assentados em palafitas. Quem frequentava o campus, convivia diariamente com aquele exemplo da obscena desigualdade social brasileira.

Fotos mostram o Bloco A, portão de entrada para os cursos de engenharia, inteiramente degradado. Como estarão os laboratórios que me viram como protótipo do professor Pardal, de jaleco, a sentir aromas inusitados e a me encantar com as cores mutantes que habitavam tubos de ensaio e erlenmeyers?

Navegava nestas divagações, quando ouvi um som familiar. Surpreso, percebi que um vizinho ouvia a rádio MEC. Será possível? Era a Valsa triste, de Sibelius. Não podia ter melhor trilha sonora para o que escrevo. Esta cidade, que esconde minhas pegadas, maltrata minhas memórias, abraça meus descaminhos, rima beleza com tristeza. Ou, como diria Monsueto, “mora na filosofia, pra quê rimar amor e dor?”.

Abraço. E coragem.

Meu amigo judeu

Meu amigo judeu

Todo antissemita tem um amigo judeu. É uma característica deles. Se dizem contra o Estado Nazista de Israel, contra os judeus que lá vivem, são sempre antissionistas fervorosos. Os de esquerda em especial não sabem que foi graças as armas fornecidas pela Checoslováquia, um satélite comunista da então União Soviética, que Israel pode vencer a guerra da Independência. Mas isto já é outra história.

Mal acabou mais um conflito entre Israel e Gaza e novamente os antissemitas de plantão fizeram a festa carregando consigo os que de boa fé apoiam um Estado Palestino. Foram 219 mortos em Gaza e 10 em Israel, o suficiente para acusar o Estado Sionista de genocídio. O fato de que desta vez tudo explodiu com o lançamento de foguetes contra Jerusalém, é apenas um detalhe. Que o conflito interessava politicamente o atual governo israelense e o Hamas, outro mero detalhe.

Vejamos entretanto o que está acontecendo no mundo para se ter uma ideia da desproporção dos ataques que inundaram o Twitter com a hashtag  #hitlertinharazão. Sim, muita gente de esquerda que se diz apenas antissionista, ajudou a subir esta hashtag.

De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, PMA da ONU, Mais de 31 milhões de pessoas devem enfrentar insegurança alimentar na África Ocidental e Central. Ela pede uma ação imediata para evitar que a falta de comida cause uma situação de catástrofe

A agência alerta que a temporada de escassez vai de junho a agosto deste ano, antes da próxima colheita. Vocês sabiam disso? Estão ajudando a evitar a fome deste contingente humano?

Ainda na África, centenas de moçambicanos estão tentando escapar da violência dos recentes ataques de grupos armados extremistas islâmicos, em Palma. Eles estão encontrando abrigos temporários com apoio do governo de Moçambique, da ONU e parceiros internacionais.

A Organização Internacional para Migrações, OIM, informou que até a quinta-feira, quase 14 mil pessoas foram cadastradas num Centro de Trânsito e Acolhimento em Pemba, capital da província de Cabo Delgado. As chegadas aumentam a cada dia. Algum antissemita, ou antissionista está apoiando os grupos extremistas islâmicos contra o governo de Moçambique?

Seis anos de conflito no Iêmen já deixaram 80% da população abaixo da linha da pobreza. O país enfrenta a maior crise humanitária do mundo: 66% da população precisa de assistência para sobreviver e 16 milhões de pessoas sofrem com a fome. O conflito armado já matou e feriu mais de 100.000 pessoas. Vocês que atacam os judeus, estão ajudando a população do Yêmen?

Vamos falar de Myanmar. Segundo o El País, “Mergulhado há décadas em várias guerras civis com guerrilhas formadas por minorias étnicas, Mianmar vê aumentarem as possibilidades de um conflito maior ante a espiral de violência e anarquia gerada após o golpe de Estado de fevereiro passado. Com mais de 500 mortos pelos ataques de policiais e militares contra os manifestantes que pedem a volta da democracia, e a fuga de milhares de birmaneses a países como Tailândia e Índia, o país enfrenta um dilema impossível: ou se opor ao Tatmadaw ―o Exército birmanês― ou se render ante os golpistas. A segunda opção tem sido descartada por algumas das guerrilhas mais poderosas da antiga Birmânia, que, em diálogos com o Governo civil na clandestinidade, concordam em se unir para formar um exército federal que possa afastar do poder as forças armadas do general golpista, Min Aung Hlaing.” Onde está a esquerda para apoiar o povo de Mianmar na sua luta por democracia?

E a Síria onde o conflito deixou em 10 anos mais de 380 mil mortos e levou 1,5 milhão de refugiados Sírios a abandonarem o país? Nas eleições presidenciais desta semana, Bashar Al-Assad ganhou com incríveis 95% dos votos. Posso estar equivocado, mas penso não ter visto nenhuma manifestação de qualquer partido político brasileiro, ou de seus líderes contra esta fraude.

Para fechar, que tal a gente falar da Bielorrússia? Lá, Alexander Lukashenko tem sido o seu presidente desde 1994. Em todas as eleições ele ganha sempre com ampla maioria dos votos. Na última, realizada em 2020, venceu com 80% . A população bem que tentou protestar, mas não recebeu nenhum apoio internacional contundente. Esta semana o país voltou as manchetes ao sequestrar um avião da Ryanar para deter um jornalista de oposição e sua companheira. Novamente preciso perguntar aqui quantas manifestações da esquerda contra este ato de terrorismo de estado foram vistas?

Hora de voltar a falar do “Meu Amigo Judeu”. É verdade que existem comunidades judaicas em quase todos os países do mundo, em maior ou menor número. Elas costumam ser organizadas e atuantes em seus países. Os judeus são sempre uma pequena parcela da população, mas parecem representar muito mais do que são de fato. No Brasil são cerca de 100 mil, mas há quem diga que foram eles que elegeram Bolsonaro.

Como todo grupo social, existem judeus de todo tipo: religiosos e laicos; sionistas e não sionistas; de esquerda e de direita; ricos e pobres; torcedores dos mais variados times de futebol; de todos os gêneros; enfim, são iguais a todos os grupos sociais que compõe a sociedade. No entanto, a direita antissemita tradicional e a esquerda antissemita de ocasião enxergam somente o judeu rico que apoia o Estado de Israel que por sua vez estaria cometendo um genocídio contra o Povo Palestino.

Antes de apontarem o dedo para Israel com uma ilação destas, me falem dos Yanomami, dos povos indígenas dizimados por vocês. Amoin Akuká, o último indígena da tribo Juma, morreu aos 86 anos por Covid-19 no início do ano. Milhares de outros indígenas morrem por doenças levadas por garimpeiros que invadem suas terras. Uma tribo inteira deixou de existir. Onde vocês estão enquanto estas coisas acontecem?

Nunca escutei amigos da esquerda me dizerem que tem um amigo índio. Nem que tenham um amigo moçambicano, nem que tenham conhecidos do Yêmen, ou da Síria, tampouco da Bielorrússia. Mas já tive vários que diziam ter “um amigo judeu“, que no caso era eu! Abandonei a amizade de todos eles quando acusaram os judeus pelo genocídio do povo palestino. Uma mentira repetida ao estilo nazista de Joseph Goebbels. E há quem acredite. E de esquerda!

Siegfried Elwanger, o famigerado dono da Editora Revisão dedicada a publicação exclusivamente de literatura antissemita e autor do livro “Holocausto, Judeu ou Alemão:”, em sua defesa no processo em que fui parte contra ele, alegava não ser antissemita e que inclusive tinha “amigos judeus“.

A esquerda antissemita é igual a direita islamofóbica. Muda apenas para quem o preconceito é dirigido. A mesma retórica. O racismo é da natureza humana, não importa a ideologia. Nisto, esquerda e direita, direita e esquerda, são a mesma coisa para quem sofre os ataques. Não existe país no mundo que não sofra deste flagelo.

Para deixar claro: genocídio cometeu a Turquia contra os Armênios com 1,5 milhão de assassinatos. Os Tutsis contra Utus com 800 mil assassinatos em Ruanda. O Kmer Vermelho no Camboja contra seu próprio povo com cerca de 3 milhões de mortos. Os nazistas contra os judeus com 6 milhões de mortos. E mais recentemente, Bolsonaro contra seu próprio povo com 450 mil mortos.

A despeito de tudo, eu sigo acreditando em um futuro Estado Palestino em Gaza e na Cisjordânia. Temos de retomar o diálogo, pois só ele pode trazer a solução para o conflito. A violência só trás mais violência e o ciclo precisa ser quebrado. Precisamos de parceiros para sentar a mesa. Países que não escolhem lado, que não apontam o dedo, que mostrem  o que pode nos unir, não o que nos divide.

Estamos cansados de tudo isso. Não queremos mais seguir enterrando nossos mortos a cada nova batalha de uma guerra que nunca terá um vencedor. Nós israelenses não vamos desaparecer. Eles, os palestinos não vão sumir. Estamos condenados a uma vida em comum, temos uma única escolha a fazer, se ela será em paz, ou em guerra.

A maioria dos dois povos  sempre escolheu o caminho da paz. Então nos ajudem a encontrá-la. Nos mostrem o caminho e permitam que o tempo do ódio fique no passado e o futuro seja de convivência em harmonia para os dois povos.

Talvez semana que vem surja um novo governo em Israel e Bibi finalmente vá para a oposição. Um governo de união nacional com partidos de esquerda, de centro e de direita apoiados por um partido árabe que vai dar sustentação. Se somos capazes de reunir forças tão distintas, tão diferentes, acredito que sejamos capazes de retomar as negociações de paz em um futuro próximo.

Esta é a melhor resposta para vocês e o seu preconceito.