Gramáticas celestes

Gramáticas celestes

Em 2017, Luis Fernando Veríssimo foi entrevistado pelo Drauzio Varella. Lá pelas tantas, Veríssimo contou como foi seu início no jornalismo. Com mais de 30 anos e sem diploma universitário, não tinha a menor ideia do que fazer da vida quando foi contratado pelo jornal gaúcho Zero Hora. Lá fazia de tudo. Era copidesque (função cada vez mais exercida por máquinas), foi responsável efêmero pelo que o pessoal chamava de “editoria de frescura” (cultura, entretenimento, variedades) e, por breve tempo, assinou coluna de previsões astrológicas.

Previsões astrológicas, o Veríssimo? Pois é. Usava as generalidades típicas deste tipo de comédia, digo, leitura do céu. Com pequenas modificações entre os textos, preenchia os espacinhos dos doze signos. A rigor, todos iguais, suficientemente genéricos para vasculhar todas as probabilidades de futuro sem grandes compromissos com a realidade. Não imaginava que os devotos gostavam de ler o que diziam todos os signos. Pra quê, zabelê! Veríssimo acabou desmascarado e foi procurar sua turma em outro espaço do jornal. Deu no que deu. Ainda bem.

O gaúcho não foi o único a usar a imaginação para criar ilusões deliciosas na imprensa. Um certo Richard McPherson, jornalista, tinha o privilégio de entrevistar anualmente em dezembro Allan Richard Way, vidente indiano cego, que pressagiava os fatos mais importantes do ano seguinte. Dizia-se que previra os atentados que mataram alguns mandatários locais.

As previsões tinham suas particularidades. De acordo com Carlos Heitor Cony, Way “nunca dizia pão-pão, queijo-queijo. Ficava em alusões periféricas”. Detalhe que excitava crédulos era um aparelho chamado “siderômetro”, maravilha capaz de antecipar a data de morte de famosos e descolados de coturno variado. A revista Manchete publicou muitas páginas com as previsões do misterioso vidente cego, sempre no mês de janeiro (quando as redações morriam de tédio pela falta de assuntos retumbantes).

O detalhe, revelado por Cony muitos anos mais tarde, é que tanto McPherson como Way eram pura invenção dele. McPherson, aliás, era o nome do ponta-esquerda da seleção inglesa daquele tempo. Foi uma forma de mudar a chatice das previsões de fim de ano. Saiu do clichê “dos videntes profissionais, uns caras geralmente vestidos de branco, num cenário esotérico, alguns com um globo de luz fazendo a função da bola de cristal, outros jogando búzios, todos chutando com a seriedade de donos do futuro e das gentes”.

Ficando nos pampas gaúchos. Sou leitor bissexto da cronista Martha Medeiros. Tem boas ideias (embora descambe às vezes para a autoajuda), ajuda-me no ofício de caçador de palavras e de mim mesmo. Bati os olhos no texto da semana passada. Martha elogia a suposta função analgésica dos horóscopos (“só sendo muito cético e carrancudo para afirmar que essas informações não servem para nada”), defende que o índice de precisão das adivinhações é o de menos (“o que importa é que nunca trazem dor”) e destaca a necessidade de viver com ilusões (“estas informações despertam fantasias necessárias, que funcionam como antídoto contra nosso pessimismo”). Ai, meus sais! Quase caí da cadeira.

Ora, ora, vou ter que desaposentar minha coleção das amadas Historinhas Semanais, embalsamadas nos idos de 50. Nelas, confundia romanticamente realidade com magia. Aos sete anos de idade, era sadio, recomendável mesmo. Hoje, isso teria certamente outro nome, nada prestigioso.

Não quero aborrecê-los com meu ceticismo inoxidável, mas convido-os a um simples exercício. Morrem 180 mil pessoas por dia no mundo, 7.500 por hora, 125 por minuto. Vai tudo no pacote causal: febre terçã, tísica, espinhela caída, mal de amor, mau olhado, dispneia, bombardeio. Mortos, suponho, aderidos ao zodíaco, isto é, com destinos legíveis. Em algum horóscopo ou similar advertiu-se aquarianos e taurinos para a Morte iminente? Recomendou-se a capricornianos e arianos, numa semana específica, cautela com espinhas e sapos (engoli-los nunca fez bem à saúde)?

Pelo sim, pelo não, dei uma espiada na seção Horóscopo de hoje. Meu signo diz que “o verdadeiro carinho se reconhece nos detalhes do cotidiano e não nas promessas de eternidade”. Eu preferia que fosse “é no riso que mora o afeto mais sincero”. Melhor ainda “emoções surgirão como um véu entre você e o que lhe cerca”. Homessa! Não sei se dá para pedir à gerência que misture as platitudes ou, pelo menos, me permita interpor um embargo declaratório. Fiquei com uma dúvida: será que baixou no jornal o ectoplasma do Veríssimo foca e a coisa toda não passa de brinquedo maroto do Luis Fernando?

Abraço. E coragem.

Medo, maldade, morte

Medo, maldade, morte

Ao Silvio Tendler, doce companheiro de utopias

Era outubro de 1938. O rádio reinava entre os veículos de comunicação. Um jovem de 23 anos ocupa o microfone e transmite, com requintes teatrais, o que parecia ser uma invasão de marcianos. Pânico em arquibancadas e gerais. Ouvintes apavorados pulando nos carros e acelerando para lugares ermos, fora do alcance dos monstrinhos imaginários. Os mais atrevidos improvisaram barricadas e, armados, esperaram pelo pior. Foi um salve-se quem puder que nem te conto.

Tudo não passava de radioteatro. O locutor-ator era Orson “Cidadão Kane” Welles, interpretando na CBS uma versão livre do clássico Guerra dos mundos, de H. G. Wells. Orson, enfant terrible de sua geração, não era calouro nas ondas do rádio. Pouco antes do célebre barata voa de ficção científica, deu voz e alma ao personagem central da série policial The Shadow, de grande sucesso. Em 1943, a rádio Nacional, a inigualável PRE-8 da minha infância, chupou a ideia e lançou O Sombra, uma espécie de teatro de mistério. Saint-Clair Lopes interpretava, com voz sinistra, o personagem central.

Ficou célebre o bordão que anunciava o programa no rádio a válvula que embalava a imaginação dos ouvintes. “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? O Sombra sabe”. Sujeito de sorte. O mal não vem com copyright no berço. É camaleônico, multimídia, surpreendente. Um que aprendeu isso no lombo, literalmente, foi o Hitchcock.

No capítulo que dedicou a ele no livro Saudades do século XX (século, aliás, pródigo em males), Ruy Castro lembra o que o genial cineasta contou sobre sua infância: “Fui educado pelos padres. Com eles aprendi o medo”. Os jesuítas, escreve Ruy, o açoitavam com uma vara de guta-percha, tivesse cometido ou não o que eles classificavam como pecado. É bom lembrar que as crianças dificilmente saberão como se define um pecado e, no início do século passado, ultrapassar certas linhas dominadas pela religião podia resultar em chicotes, palmatórias e feridas psicológicas. Desconfio que mestre Alfred teria gostado, e se divertido, se as aves rebeldes da obra-prima Os pássaros tivessem arremetido contra os que tanto mal lhe causaram. Os sádicos provariam um pouco de seu veneno perverso.

Estou lendo o livro de reminiscências de uma autora argentina vanguardista do século passado. Em Cadernos da infância, Norah Lange menciona uma de suas quatro irmãs que, quando pequena, sofria de pilhérias humilhantes das manas. Nessas ocasiões, apelava para o que de mais subversivo seria numa tradicional família da época. Sem atinar com os motivos da maldade que a magoava, punha a culpa no Além e na Magia. Murmurava baixinho, mas peremptória: Deus é mau, Deus é mau… No lugar dela, acho que eu não diria diferente. Como é que uma entidade apresentada como poderosa, sábia e onipresente permitia tantas e tamanhas maldades, tantos e tamanhos sofrimentos? Onde estava o Sombra numa hora daquelas?

Os primeiros contatos do Menino com a religião também foram assustadores. Com a morte inesperada do Grande, foi escalado para dizer a oração dos mortos duas vezes por dia, durante ano inteiro. Sem pausas. Era possível não fazê-lo? Certamente, mas quem poderia assegurar que a transgressão não resultaria em pena severa? Quem saberia o que anda pela cabeça de um justiceiro tão implacável que levou à morte todos os primogênitos egípcios no episódio do Êxodo? Honestamente, nem o Sombra saberia traduzir tanta maldade. Pelo sim, pelo não, repeti 730 vezes a tal oração, cuja tradução do hebraico ninguém fez para mim. Sons de inconformismo e brutalidade. Medo, maldade, morte. Não há rima, nem solução.

Na sala de espera da fisioterapeuta, puxo conversa besta com uma mulher que também esperava atendimento. Depois de desfiar um novelo de identidades (“sou socialista, leio tudo sobre natureza, sou espiritualista”), garantiu fundamento científico para almas e espíritos. Bem, aí mexeu no meu calo de estimação. Disse-lhe que o Sol está em lento processo de extinção. Pode durar uns bilhões de anos, mas nossa estrela mater vai desaparecer e, com ela, todas as formas de vida na Terra. Neste momento fúnebre, para onde irão ectoplasmas e outras invisibilidades? Ela não se perturbou. Garantiu que “encarnaremos” em outros corpos celestes. Como não estaremos aqui para presenciar a metamorfose cósmica, posso apenas fazer um desejo: que o Sombra sobreviva nas futuras encarnações e ajude a entender o mal que se esconderá nos corações estelares.

Abraço. E coragem.

Conversa com o poeta

Conversa com o poeta

O ano era 1962. Multidões saíram às ruas no Brasil para comemorar o bicampeonato mundial de futebol, no Chile. Parecia enterrado de vez o complexo de vira-lata, grudado na psique nacional com o Maracanazo. A Argélia derrotava o colonialismo francês, depois de uma guerra popular vitoriosa. O planeta estremecia com a chamada Crise dos Mísseis, episódio crítico da Guerra Fria gerado pelo inconformismo imperialista com a revolução cubana. Em Copacabana, um homem triste vê demolida a casa onde morou por 21 anos.

Carlos Drummond de Andrade, o itabirano que tinha o sentimento do mundo, comentaria mais tarde que vinte anos é um grande tempo, modela qualquer imagem. Sua casa, sua coleção de memórias e quereres, já não existia mais. Aquele pedacinho de terra na rua Joaquim Nabuco, tão seu, tão cheio de gavetas, poeiras, papeis amarrotados e fantasmas, estava para se transformar num desses prédios impessoais que desfiguram a cidade. Era a mancha do futuro distópico que se projetava.

Todos os dias encontro a estátua do poeta no vai-e-vem do calçadão atlântico. Lá está ele, no calmo bronze da eternidade, vendo as pedras portuguesas no caminho de tanta gente. Certa vez, lembrando da casa destruída, resolvi convidá-lo para prosear sobre perdas e danos, assunto pra mais de légua e meia. Dei-lhe um tapinha no ombro, ele espantou a preguiça metálica (com ar de nostalgia do ferro mineiro) e me acompanhou na caminhada rumo ao passado.

Carlos observou que nunca apreciou casas muito arrumadas. Chegou mesmo a escrever uma espécie de bula contra o excesso de zelo nos cômodos. Gostava de ver as cicatrizes do uso, marcas da vida que fluía entre assoalhos, azulejos, móveis, fogões. Lembrou-se do que escrevera: “Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente. Arrume sua casa todos os dias… Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo para viver nela… E reconhecer nela o seu lugar”.

Disse-lhe que podia compreendê-lo. Minha casa antiga não foi demolida, mas dela sobraram estilhaços de vidas sem conta. Muitas cicatrizes. Foram almoços dominicais com mameligue (angu à moda judaica, cortado com barbante) e lanches de pão com schmaltz (banha de galinha endurecida). Foi a olhada furtiva no buraco de uma fechadura, recolhida como se fora o oitavo pecado capital. Foi a travessura imperdoada, que convocou chinelo e ira. O pau comeu na casa de Noca!

A casa antiga não tinha fronteira definida. Ninguém disputava territórios, refugiados não havia. Da varanda modesta saía um glorioso campo de pelada, verdugo dos pés descalços e testemunha de craques que nunca brotaram. Do campo derivava um teatro de operações guerreiras alimentadas por índios de carnaval e soldados de chumbo. De tudo aquilo sobrou a sensação de que o tempo não foi perdido. Quase sem mover os lábios, Carlos sussurrou: O tempo perdido certamente não existe. É o casarão vazio e condenado.

Chegamos ao número 81 da rua Joaquim Nabuco. Do nada, lembrei de uma velha marchinha de carnaval, marotice permitida em tempos caretas: Menina vai, com jeito vai, senão um dia a casa cai. É, aquela caiu mesmo. Para meu espanto, o poeta ressuscitou um velho desenho animado, genial criação da dupla Hanna & Barbera: Os Jetsons. O ambiente esterilizado, esteiras rolantes no lugar de calçadas, nenhum espaço comum de convivência. Era assim que sentia as sobras da cidade que lhe roubara a casa em nome de um progresso monetizado e sem poesia.

Voltamos ao banco de pedra onde Carlos assiste a eternidade. Antes de reassumir a pose perene, tem tempo de me dizer: Menino, não passamos de caracóis pretensiosos. Carregamos nossas casas nas costas e tentamos habitá-las para dar um sentido qualquer ao lusco-fusco da vida. Obrigado pela lembrança e pela conversa.

Olhei em volta. O sol, exuberância cósmica, brilhava na paisagem de Copacabana. Coagulou na memória uma velha canção dos anos 60, House of rising sun. A letra é triste, mas a melodia e o título são perfeitos para o encontro com o itabirano. Voltarei a ele, e às nossas casas, nas esquinas do tempo.

Abraço. E coragem.

Peraltagens

Peraltagens

Costumamos olhar para o planeta como se ele estivesse aí apenas para nos servir. Senhores da Vida e da Morte, todas as formas de existência deveriam prestar-nos vassalagem. Até mesmo na capacidade de brincar julgamo-nos inigualáveis. Como assim brincar? Sim, esse negócio de movimentar-se com prazer, sem pressão por sobrevivência ou estresse, alegre. Nada que exista na Natureza tem disso, orgulhamo-nos.

Devagar com o andor, alertam pesquisadores potiguares. Observando grupos de símios, que não eram miquinhos amestrados, perceberam comportamentos que são claramente brincantes. Macaquinhos irmãos brincam juntos, sem qualquer intenção de domínio. Quando a fêmea dá à luz apenas um filhote, outros pequerruchos o adotam, atraindo-o para a algazarra sem compromisso, criando vínculos pelo contato lúdico. Mesmo adultos podem ser observados, por exemplo, jogando pedras ou galhos para o alto, sem buscar qualquer recompensa. Não estamos sozinhos na arte do fazer nada sem culpa.

O brincar do Menino exigia, não raro, improviso e invenção. Com recursos poucos, brinquedos eram criados a partir de restos de madeira, metal, vidro. Times inteiros de futebol de botão nasciam a partir de casca de coco, botões de armarinho e fichas de ônibus. Caixas de fósforo marca Olho recheados de chumbo transformavam-se em Poy, Gilmar, Pompeia, Castilho, Yashin e Barbosa, guarda-valas invencíveis. Partes da estrutura de cadeiras velhas renasciam como potentes Winchester a caçar búfalos e mascarados. Meias recheadas com jornal velho adentravam o campinho de pelada a espantar Maracanazos, enfeitar dribles humilhantes e vencer campeonatos épicos. Rodinhas de bilha sustentavam bólidos construídos com tábuas de caixotes velhos e engenharia delirante. Varetas de bambu, papel colorido e linha branca número 10 desovavam pipas e, com elas lá no alto, o vento fazia mágica. Sensação passarinheira de pilotar o voo elegante.

A Natureza acolhia os folguedos. Quem nunca pisou em terra molhada, tomando banho de chuva, não sabe o que perdeu. Quem nunca sentiu o aroma de capim molhado tem grave falha na biografia. Por falar em capim, carrego na perna uma cicatriz-troféu. O Menino fazia uma expedição no matagal formado por capim navalha, planta ardilosa e com fio matador. Um passo em falso e, zás!, um corte respeitável. E desrespeitoso. Não me abati. Continuei naquele teatro, mimetizando Tarzan e Jim das Selvas. Sobrou a cicatriz, troféu das boas infâncias.

Nada disso é vivido pela geração de hoje, grudada em telas planas que convidam à preguiça. Verdade que campinhos de pelada já não há, terra para manusear e pisar a cidade comeu, espaço para soltar pipa disse adeus e foi-se embora. A infância sai atordoada, com prejuízos que só serão medidos mais adiante em adultos que terão memórias pobres de emoções importantes nesta fase da vida.

Minha neta veio passar um dia conosco. Nestas ocasiões, gosta de ir comigo a um sebo aqui perto. E lá fomos. Ela queria pesquisar livros da saga Harry Potter. Encontrou três, que lhe produziram um sorriso desbragado. Perguntei-lhe se já havia assistido os filmes baseados nos livros. Todos eles, respondeu de pronto. Ué, então pra quê ler as histórias que já conhece?, levantei a bola. Ah, nos filmes fico com dúvidas sobre muitas cenas e nos livros posso esclarecer tudo, respondeu convicta. O segredo, pois, está nas letras e no estímulo à imaginação que os livros desencadeiam. Uma pré-adolescente que já sabe das coisas e não se viciou na comida pronta das telas. Lindo ponto fora da curva.

Artistas populares gostam de ser chamados de brincantes. Quando trabalham, dizem que estão brincando. Manoel de Barros, o grande poeta pantaneiro, considerou-se a vida inteira um menino, que fabricou seus próprios brinquedos e garantiu que o quintal de casa era maior do que o mundo. No poema “O menino que carregava água na peneira”, primor de doçura, a mãe de um garoto cheio de “despropósitos” diz-lhe: “Meu filho, você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens. E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos”. Felizes os que conseguem carregar este espírito no mundo que confunde cara feia com seriedade. Abençoados os que brincam, improvisam, inventam, cultivam cicatrizes memoráveis, quebram bibelôs, não esquecem do chicote-queimado e consertam almas tristes.

Abraço. E coragem.

Sons mutantes da cidade

Sons mutantes da cidade

Vinícius de Moraes precisava de um pouco de solidão. Pegou o bonde e saltou numa rua de terra batida, com poucas casas e iluminação precária. Era a Ipanema dos anos 40 e o barulho do mar bailava uma valsa com a sombra trêmula e os pensamentos longínquos do poetinha.

Perto de um casarão, ouviu o som de um piano. Alguém o dedilhava com a hesitação dos principiantes. No silêncio da noite, os dó-ré-mi competiam com o canto dos grilos. O poeta sorriu e naquela paisagem quase rural vieram as primeiras palavras que comporiam A espantosa Ode a São Francisco de Assis. “Tudo é magia! Lembras-te? o silêncio fantástico das noites/E a alma bêbada de emoção? e nenhum pouso”.

A trilha sonora do Menino incluía poucos pianos. Famílias de classe média baixa sequer tinham espaço em casa para alojar o instrumento. Os tios paternos foram exceção. Arrumaram um jeito de acomodá-lo e deram-lhe o uso tradicional para as “moças prendadas”. Estas deveriam saber cozinhar, costurar, administrar a casa, sufocar a sexualidade e, como atração da companhia, tocar algum instrumento musical. Viravam, assim, bons partidos nos campeonatos amorosos. Minha prima aprendeu a tocá-lo e aproveitou para transgredir o destino. Certo, aprimorou o gosto musical, mas também tornou-se professora, conquistou independências.

Portátil, o acordeon sentou praça na minha casa. Não para mim, mas para a Irmã. Com método Mario Mascarenhas na veia, deu algumas sanfonadas, mas não foi muito longe com o instrumento de segunda mão comprado a duras penas. Como será que morrem os instrumentos? Não conheço criança alguma que tenha aulas de acordeon, fantasma de fole que ressuscita apenas em época de festas juninas.

Quem frequentou cinema nos anos 50 e 60 há de lembrar de Adelaide Chiozzo. Era acordeonista e atriz nas chanchadas da Atlântida. Depois da introdução com a imagem de um imenso chafariz, vinham histórias com roteiro padrão: mocinho com muita Glostora no cabelo (em geral o Cyll Farney, ótimo baterista e boa pinta profissional; seu nome real era Cilênio Dutra e Silva) flertava com mocinha virginal (Eliana Macedo como poule de dez) e abatia José Lewgoy, o vilão preferencial de sotaque agauchado e sempre ingênuo. No meio de tudo, correrias e trapalhadas de Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Zé Trindade, os irmãos Ema e Walter D’Ávila, Dercy Gonçalves. Muitos números musicais, para os quais o Menino torcia o nariz. Com um pouco de sorte, apareciam vedetes que faziam a imaginação e certas partes da Baixa Eslobóvia estremecerem (Norma Bengell, Carmem Verônica, Íris Bruzzi, Renata Fronzi). Foram uma espécie de ensaio geral do cinema brasileiro, com grande aceitação popular. Adelaide Chiozzo e seu acordeon eram habitués da coisa toda.

Hoje, os sons das ruas cariocas podem tudo, menos inspirar poemas e respeitar solidões. Ande-se nos bairros e é quase certo que haverá invasão de latidos de cães neuróticos, praga que não para de crescer, ao lado de outros decibéis homicidas. O número destes animais, especialmente os nanicos agitados, multiplicou-se com a pandemia e os donos são indiferentes à barulheira dos totós. Às vezes desconfio que, numa brincadeira do tempo e da geografia, Mussorgsky compôs Uma Noite no Monte Calvo inspirado nos descontroles da bicharada carioca. Os mesmos que me despertam sentimentos inconfessáveis. Au, au, é uma ova!

Abraço. E coragem.

Olhos nos olhos

Olhos nos olhos

A sensação tátil é da areia peneirada grosseiramente. Cor branda, neutra. O saquinho continha o resíduo da cremação de minha irmã, morta ano passado. Nos últimos momentos de lucidez, ela pediu que jogássemos as cinzas num lugar a céu aberto no Rio, simulando um abraço da Natureza.

Foi o que fizemos. Nada difícil achar um local adequado. O Rio, tão pródigo em mazelas insuperáveis, é generoso em encontros de mar com montanhas. A beleza aliviou um bocadinho o peso da despedida final. É instrutivo perceber a que nos reduzimos: uma combinação inexpressiva de produtos químicos de baixa complexidade, restos de estrelas vadias e doses variáveis de arrogância, delírios e sonhos perdidos. Areia, nada além.

Chegando em casa, meu olho esquerdo reclamou. Parecia ter sido invadido por uma poeira. Seria parte daquela? Dei de ombros. Não vai ser nada, passa sozinho. Não passou. Desembarquei numa consulta de emergência ao oftalmologista. O invasor foi localizado e retirado por agulha (a visão dela se aproximando da vista não é das mais poéticas). Algum crédulo poderia jurar que minha irmã queria esticar a permanência por aqui. Se fosse o caso, teria lhe dito (desculpem, mas não escreverei ter-lhe-ia) que o que fica são memórias, poeira não combina com retina.

Minha avó materna costumava usar os olhos para dialogar com o invisível. Quando percebia alguma coisa de bom tom, que as crianças estavam se alimentando direito ou recebia uma boa notícia, dizia no idioma ancestral, em sotaque polonês: Kain ain ore! Que o mau olhado não vigore! Se a desconfiança era de que o mau agouro estava instalado, detonava um pequeno ritual. Enchia com sal um saquinho de pano, amarrava-o com barbante, fechava os olhos e fazia o saquinho circular em torno da vítima do azar, murmurando mistérios. Soprava os olhos do freguês e atirava o sal no fogo.   Era tiro e queda.

Há um filme extraordinário do Woody Allen, no qual os olhos são personagem vital. É Crimes e pecados. Não vou entrar em detalhes, há uma sucessão de temas/personagens instigantes. Woody em grande forma. Fixo-me em dois deles. O primeiro é Judah Rosenthal, oftalmologista famoso envolvido com uma amante possessiva. Ele diz que escolhera a profissão por receio do “olho de deus”. De acordo com seu pai, judeu religioso, deus tudo vê, tudo avalia, tudo julga. A imagem assombrou Judah em toda a juventude e, na tentativa de controlar aquele olho tão exigente, potente e implacável, resolveu estudar e consertar os olhos humanos. Só aderindo ao cínico que carregamos dentro de nós conseguiu libertar-se do juiz viscoso.

Millôr Fernandes tinha uma pensata que resolveria, idealmente, as aflições de Judah. Disse o Irritante Guru do Meier: “Deus existe apenas porque você acredita nele. Tua única vingança, se ele te castigar, é deixar de acreditar e acabar com ele”.

O segundo é um paciente de Judah. Trata-se de um rabino com uma doença progressiva nos olhos, que acabará por cegá-lo. O personagem não se deixa abalar. Ao contrário. Quanto mais cego fica, parece ficar mais sábio. O mundo interno assume a presidência daquela vida. É uma metáfora muito forte.

Vivemos numa época onde prevalece uma cultura de vigilância extrema. O olho do Grande Irmão está espalhado por todos os cantos, não raro com a anuência dos vigiados. São voluntários do voyeurismo. Tudo vira motivo de bisbilhotice. Prato de comida em restaurante chique, fotos fofinhas dos protozoários de quatro patas, os cotidianos sempre maravilhosos. Mundo Barbie.

Tinha algumas ideias para concluir este encontro semanal, quando esbarrei num documentário sobre o Veríssimo (saudade das crônicas dele). Lá estava o olho do grand finale. Em nenhuma cena aparecem celulares. Seja nos encontros familiares ou nas palestras do Luis Fernando, ninguém desvia a atenção para telas ou teclas. Ninguém fotografa ao invés de interagir. Isto sim é que é um pessoal que enxerga longe. Olhos de lince, olhos nos olhos, olhos de deslumbre, tchê!

Abraço. E coragem.